Minha mãe sempre nos conta uma história de um natal, lá dos idos mil
novecentos e quarenta e poucos, quando ainda era uma menina e não
havia essa fartura de chocolate e brinquedos que as crianças têm nos
dias de hoje.
Como descendente (neta) de imigrante italiano, a família de minha
mãe Emília até possuía terras, mas dinheiro vivo, não. As compras
eram feitas na base da troca. Tinham tafona de moer milho e assim
seu trabalho era trocado por outras mercadorias que necessitavam.
Ela nos conta de um natal em que ela descobriu o esconderijo onde a
nona Natalina (esse era nome dela mesmo!) colocou o papai Noel de
chocolate que as meninas ganhariam. Era o único presente de natal.
Nada de brinquedos. Só o chocolate para ela e a irmã caçula. Em dois
tamanhos. Por certo, o maior seria para a irmã menor. Era sempre
assim. Ela era sempre a preferida!
E todos os dias a minha mãe ia ao esconderijo: o guarda-roupa no
quarto da nona, no bolso do paletó do nono e ficava "namorando" o
papai Noel de chocolate grandão.
No primeiro dia só alisou de cima a baixo, cheirou e guardou
depressinha. No segundo dia, desembrulhou um tantinho e cheirou...
Hum... Quem poderia resistir? Não! Teria que esperar até o natal! No
terceiro dia... Ah, quem poderia? Comeu uma botinha e embrulhou de
novo. Quase nem dava pra notar... Noutro dia, escondinha, saboreou
(oh, que delícia dos céus!) mais uma das botas do papai Noel.
E assim, a cada dia, minha mãe Emília, foi deixando os dois papais
noéis do mesmo tamanho (lembram que um era maior que o outro?). No
dia de natal as duas meninas ganhariam o mesmo tanto de chocolate,
oras! Ou menos, pois esse papai Noel já estava ficando menor...
Esse era o pensamento, sem culpa, de minha mãe, tão menina, tão
inocente e tão gulosa.
No dia de natal, quando amanheceu, no prato dos doces de cada uma
tinha um papai Noel de chocolate. Naqueles tempos, os presentes eram
dados pela manhã de natal e colocados em pratos com os nomes das
crianças.
No prato de minha mãe (adivinhem?) estava o papai Noel sem as pernas
já saboreadas por ela. A nona Natalina, muito sábia, desconfiou quem
tinha sido a autora de tal peripécia.
Não disse nada. Não brigou. Não chamou a atenção. Nem minha mãe
reclamou.
Desta vez passou batido. Afinal, era natal!