08/12/2007
Ano 11 - Número 558


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Gostinho de papai Noel

 


Minha mãe sempre nos conta uma história de um natal, lá dos idos mil novecentos e quarenta e poucos, quando ainda era uma menina e não havia essa fartura de chocolate e brinquedos que as crianças têm nos dias de hoje.

Como descendente (neta) de imigrante italiano, a família de minha mãe Emília até possuía terras, mas dinheiro vivo, não. As compras eram feitas na base da troca. Tinham tafona de moer milho e assim seu trabalho era trocado por outras mercadorias que necessitavam.

Ela nos conta de um natal em que ela descobriu o esconderijo onde a nona Natalina (esse era nome dela mesmo!) colocou o papai Noel de chocolate que as meninas ganhariam. Era o único presente de natal. Nada de brinquedos. Só o chocolate para ela e a irmã caçula. Em dois tamanhos. Por certo, o maior seria para a irmã menor. Era sempre assim. Ela era sempre a preferida!

E todos os dias a minha mãe ia ao esconderijo: o guarda-roupa no quarto da nona, no bolso do paletó do nono e ficava "namorando" o papai Noel de chocolate grandão.

No primeiro dia só alisou de cima a baixo, cheirou e guardou depressinha. No segundo dia, desembrulhou um tantinho e cheirou... Hum... Quem poderia resistir? Não! Teria que esperar até o natal! No terceiro dia... Ah, quem poderia? Comeu uma botinha e embrulhou de novo. Quase nem dava pra notar... Noutro dia, escondinha, saboreou (oh, que delícia dos céus!) mais uma das botas do papai Noel.

E assim, a cada dia, minha mãe Emília, foi deixando os dois papais noéis do mesmo tamanho (lembram que um era maior que o outro?). No dia de natal as duas meninas ganhariam o mesmo tanto de chocolate, oras! Ou menos, pois esse papai Noel já estava ficando menor...
Esse era o pensamento, sem culpa, de minha mãe, tão menina, tão inocente e tão gulosa.
No dia de natal, quando amanheceu, no prato dos doces de cada uma tinha um papai Noel de chocolate. Naqueles tempos, os presentes eram dados pela manhã de natal e colocados em pratos com os nomes das crianças.
No prato de minha mãe (adivinhem?) estava o papai Noel sem as pernas já saboreadas por ela. A nona Natalina, muito sábia, desconfiou quem tinha sido a autora de tal peripécia.

Não disse nada. Não brigou. Não chamou a atenção. Nem minha mãe reclamou.
Desta vez passou batido. Afinal, era natal!

 

(08 de dezembro/2007)
CooJornal no 558


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br