Uma coisa que me faz dar água na boca é a lembrança das "misturas"
que a mãe fazia para o nosso café quando a gente era pequena.
"Mistura" era o nome que dávamos às bolachas, pães, bolos,
cavaquinhos, pastéis ou o que mais fosse feito em casa para o café
da manhã ou da tarde, que eram sempre muito fartos pois despendíamos
muita energia nas nossas brincadeiras de rua.
Essa tarefa exigia sempre uma grande mão-de-obra, já que as tais
misturas eram feitas em grande quantidade para que durassem alguns
dias dentro de latas grandes, que ficavam em cima do guarda-comidas
na cozinha ou na despensa, nas prateleiras mais altas, fora do
alcance de nós, crianças, e sempre acompánhavamos a lida, esperando
sempre pelo primeiro quitute que ficasse pronto. No dia de fazer
"misturas" a cozinha ficava que era só farinha por tudo quanto é
canto. As massas eram estendidas na mesa de tábua clarinha e depois
de tudo pronto, havia a faxina com a mesa sendo lavada com
palha-de-aço. Era uma delícia ver tudo prontinho, mas dava uma
canseira!
Pão da padaria, na nossa casa, só em último caso. E olhe que a
padaria era logo ali, na porta de casa, e era do meu tio! Mas, por
medida de economia, minha mãe fazia as "misturas" todas em casa. E
eu ficava só na vontade de comer "pão de venda".
Até hoje, tenho saudades dos cavaquinhos que minha mãe fazia. Macios
ou crocantes, com açúcar ou sem. Todas as misturas eram feitas com
capricho e mais que a necessidade, tinha entranhado na massa, o
carinho dela e o cuidado pela família para que ficássemos bem
alimentados. E ainda hoje, quando nos vem visitar, traz latas de
misturas feitas por ela, ou encomendados à alguma doceira. Minha mãe
sabe dos nossos gostos e nunca esquece de fazer um agradinho à nossa
boca. Assim voltamos à infância com as bocas lambuzadas de açúcar e
afeto.