15/03/2008
Ano 11 - Número 572


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



O dito pelo não-dito

Há dias venho pensando sobre um assunto e isso não sai da minha cabeça. O que devemos falar? Até onde podemos falar com nossos amigos e parentes?

Sinceridade nem sempre é sinal de bondade.

Têm pessoas que têm a mania de dizer que são sinceras, mas na verdade, são mal educadas pois dizem coisas que poderiam deixar de dizer.

Nem todo mundo quer ouvir a verdade.

Também não é preciso mentir. Apenas deixa-se de dizer a verdade.

Saber calar na hora certa é a senha para não magoarmos a quem amamos.

Mentira piedosa também é dose, mas às vezes é indispensável.

Sabe aquelas coisas que se dizem só para agradar e deixar o outro feliz?

Eu já deixei de dizer coisas para não magoar a quem amo e até já disse uma mentirinha piedosa para levantar o astral de quem quero muito.

Disto não me arrependo.

Arrependo-me dos meus rompantes de raiva quando digo e escrevo coisas que vêm não sei de que quartinho obscuro que tenho em meu coração.

E uma vez dita (ou escrita) a palavra tem vida própria e fica me perseguindo pela vida afora.

O que se pode fazer nestes casos?

Eu, como obsessiva compulsiva assumida, acabo ficando deprimida pois não vejo solução.

Não posso voltar no tempo e apagar o que foi dito (ou escrito).

Já não depende mais de mim.

Quem sentiu minha raiva e ouviu (ou leu) minha raiva doída é que vai ter que me perdoar.

As palavras que eu disse (ou escrevi) já não são mais minhas e o preço que terei que pagar para resgatá-las e limpá-las de todo significado ruim é sempre muito alto.
Perde-se amigos e amores. Chora-se por tempos... Mas é o próprio tempo quem serve de consolo nestas horas.

Um dia, a gente acaba esquecendo.

Tanto o ofensor quanto o ofendido um dia esquecem do que foi dito...

A questão é: dá para continuar sendo o que se foi depois de tudo?

Não.

Algo sempre muda.
O que espero, sinceramente, é que mude para melhor. Que o episódio sirva de crescimento para ambas as partes.

Tudo nesta vida é aprendizado. E o que se aprende nestes casos é que o amor ou a amizade podem valer mais que meia dúzia de palavras duras e ásperas.

Dá para esquecer, sim... e aprender.

E você, conseguiria me perdoar?

 

(15 de março/2008)
CooJornal no 572


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br