Como é doído voltarmos ao lugar em que passamos a infância depois de
alguns anos e ver que tudo mudou e nada está como em nossa memória!
É claro que o progresso chega em todo lugar e isso é mais do que
esperado, mas o sentimento que me assombrou tomou-me de supetão e me
deixou com um nó garganta foi ver que não havia mais a casa em que
morei durante tantos anos como pensava que a veria quando voltei ao
Rio Maina.
Eu a tinha ainda gravada na memória com seu pequeno jardim, a
varanda, as janelas azuis, o quintal grande, o mato atrás de casa, o
pomar. Eu ainda corria por todos aqueles lugares e, de repente, vi
no lugar da minha casa, uma loja de bicicletas. Mas como? Tive que
piscar várias vezes e sair do transe hipnótico em que fiquei.
Fiquei perdida. Já não conseguia atinar com a vizinhança.
Onde meu balanço na árvore antiga? Onde a dona Rosa, nossa vizinha
de porta? Dona Ester? A padaria do tio Zidoro? A oficina? A figueira
onde eu ficava esperando o ônibus para ir ao colégio? E o prédio da
minha nona? E os meus primos? O Toninho? O Tite? O Nené...
Onde todos da minha infância?
Eu fiquei suspensa como num filme, em stand by, naqueles dias de
escola, de uniforme de pregas azul marinho, com as amigas a
tagarelar pela rua do cine Guarani ou da casa de ferragens, da venda
do seu Artur... A estrada de paralelepípedo... E o som dos meus
passos no passado se aquietaram.
Todos perdidos no avançar inexorável dos anos.
Eu também havia mudado. Mudei de casa, de cidade. Mudei-me no mundo.
Como é que eu queria que ficassem esperando sentados por mim?
É que a menina que queria sua infância de volta, continua a mesma...