"Se me contemplo,
tantas me vejo,
que não entendo
quem sou, no tempo
do pensamento.
(...)
Múltipla, venço
este tormento
do mundo eterno
que em mim carrego:
e, una, contemplo
o jogo inquieto
em que padeço."
Cecília Meireles in Mar absoluto e Outros Poemas
Não quero imitar, mas acabo imitando. Ando com tantas odetes em mim,
que me vejo como tantos poetas que se desdobraram em vários
personagens (olhem que convencida que estou!).
Quem está escrevendo aqui é a
odete-dona-de-casa-mãe-esposa-filha-irmã-poeta-amante-triste-faceira-arteira-etc-e-tal.
Vim aqui com todas as minhas odetes, mas nem sempre é assim.
Muitas vezes aparece somente a odete-poeta e esta é meio tristonha,
meio down, deprimida até, e quando ela aparece, toma conta das
minhas palavras e não consigo controlar. Por isso a maioria de meus
poemas são tão tristonhos. Esta odete sofre e chora de verdade.
Noutras vezes vem a odete alegre, displicente, divertida até... (a
que manda recadinhos). Esta adora brincar de amar. Adora um "fantasiê".
Veste-se de namoradeira e sai aprontando.
Na maioria das vezes aparece a odete centrada: é a que escreve
crônicas do dia-a-dia com transparência e verdade, sem enfeitar
nada. Esta é a mais realista que existe dentro de mim. É a
dona-de-casa, amiga dos eletrodomésticos, a que cozinha sopas ao
anoitecer e espera o marido na porta de casa. É a mãe e avó
dedicada. É a que brinca de casinha todos os dias.
Existe tantas odetes em mim, quantas são necessárias para cada
ocasião.
O difícil é quando minhas múltiplas personalidades se misturam e eu
me atrapalho toda.
Não é fácil gerenciar cada uma delas, pois a cada dia me desdobro em
outras que vão aparecendo.
Sabem?
A odete-poeta fica tímida quando tem que mostrar seus poemas ao
mundo. Aí entra a odete-sensata e diz: pra que você escreve se não
quer mostrar ao mundo? Não precisa se envergonhar de ser tão
sentimental e lírica.
Então me solto, poeta, enfim...
Esta multiplicidade de odetes já foi observada por alguns de meus
leitores (vejam que chique!) que me escreveram falando do assunto e
eles ficam admirados com minha abundância de identidades (eu acho
que ficam atrapalhados com tanta confusão...).
E se eu desse um pseudônimo para cada minha personalidade?
Faria como Fernando Pessoa e seus heterônimos.
Hi! Acho que não devo. Vou me atrapalhar mais ainda.
Melhor deixar como está.
Assim vou sendo múltipla e dou, a vocês, o problema de descobrir
qual está atuando no momento.
Saberiam me dizer quem está aqui agora?