29/08/2008
Ano 12 - Número 596


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Tímida juventude

 

Lá pelos meus 16, 17 anos, início dos anos 70, eu estava fazendo o segundo grau no Madre Teresa Michel, um colégio de freiras de Criciúma. Naquele tempo a gente era chamada de normalista. Eu adorava estudar lá com aquele uniforme azul marinho (quatro dedos acima do joelho no comprimento), tirante com botões e blusa branca de fustão. (De fazer inveja a qualquer fantasia erótica dos dias de hoje).

Sapato colegial e meias soquetes brancas para o uso diário e meias finas para o uniforme de gala, ou seja, dias de desfile de 7 de setembro ou festas no auditório do colégio.

As freiras eram exigentes quanto ao uso correto do uniforme e quem não estivesse de acordo não podia assistir às aulas. Vi muitas meninas de bainhas desfeitas pela Irmã Celina porque não obedeciam ao comprimento exigido.
Eu estava sempre dentro das regras, mesmo porque sempre fui uma aluna modelo: líder de classe, editora do jornal da escola, as melhores notas da turma. Fui a oradora da turma na formatura.

Eu compensava nos estudos a minha timidez e o complexo de inferioridade. Me achava, feia, gorda e tansa. Tinha medo de me aproximar dos rapazes. Ficava lembrando dos avisos da minha mãe que achava todos os meninos como potenciais conquistadores de suas filhas. Nunca tive um amigo do sexo oposto. Meus pais nunca permitiram.

Nesta época, tive meu primeiro namorado, dei o primeiro beijo... mas continuava tímida. Ficava com as bochechas coradas quando alguém me olhava diretamente. Eu sentia queimar as faces e sabia que estavam vermelhas. E quanto mais eu pensava nisso, mais vermelha eu ficava, chegando a ficar rubra. Eu odiava aquilo!

Tínhamos as festas americanas e as tardes dançantes, o cinema do tio Mário, os encontros nas festas juninas, os primos, os passeios de jipe. E continuava a me achar feia... E a ficar rubra nas faces.

Mesmo com as roupas da última moda, costuradas pela minha mãe, eu não conseguia ficar confiante. Não confiava no meu taco. Timidez pura.
Esse sentimento me perseguiu durante toda a minha adolescência e nem sei se já me abandonou. Essas coisas criam raízes.

Desta época ficou a lembrança dos amores "impossíveis", das tardes de domingo, das amigas, dos passeios de jipe pelas tardes dançantes da região, das conversas com os primos... Ah, e tinha também aquele vestido vermelho, longo e rodado que fazia sentir-me uma princesa. Era o único que combinava com o rubro da minha face.

 

(29 de agosto/2008)
CooJornal no 596


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br

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