10/10/2008
Ano 12 - Número 602


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Altos e baixos - o efeito gangorra

 

Comecei a ler o livro da Kay Redfield Jamison "Uma mente inquieta" e em vários relatos me identifiquei com a autora que tem transtorno bipolar, antigamente chamada de doença maníaco-depressiva.

É um transtorno onde o paciente se vê em fases de extraordinária produção intelectual e física, opondo-se a outra fase de completa ausência de interesses pelo que quer que seja. Fases de euforia e fases de depressão braba.

Fases como a lua: "fases de andar escondida, fases de vir para a rua", como diz a Cecilia Meireles nos seus versos.

Vou falar por mim que me trato (há bastante tempo) deste mal:
Desde que me conheço por gente, sempre tive esses altos e baixos no meu comportamento. Que eu me lembre, desde a minha infância, na época do primário, eu já apresentava surtos maníacos. Lembro de uma vez que rasguei livros e cadernos só porque não conseguia traçar uma linha com a régua e caneta sem borrar. Conseqüência: tive que remendar o livro e passar todos os "pontos" a limpo.
Pela vida afora, fui apresentando mais ou menos episódios que sempre pareciam fazer parte da minha personalidade "estranha", mas nunca tive um diagnóstico a não ser há alguns anos (16 anos).

Na fase depressiva o raciocínio e a concentração ficam comprometidos. Não consigo ler, escrever ou ver filmes.

Tenho fixação pela morte: medo de perder os que me rodeiam e constantemente querendo uma explicação para este tema. Não me animo a fazer nada, o sono fica perturbado com freqüentes apnéias.

Não saio porque não quero ver gente. Tenho medo de qualquer aproximação, mesmo com os mais chegados da família.

Não atendo telefone ou campainha.

Não saio para fazer compras ou cuidar de mim.

Fico horas parada com a mente perdida, sem nenhum pensamento.

Nestas horas, o choro fica fácil, a raiva fica descontrolada e, não raro, acabo quebrando objetos que estão ao alcance das mãos.

Meu estômago vive com um grande buraco e como grandes quantidades de comida até vomitar... e me arrependo depois. Não foi à toa que fiquei obesa, culminando numa gastroplastia.

Procuro comida nos armários e geladeira e acabo comendo porcarias que me fazem mal.

Na fase de mania faço tudo exageradamente e com uma alegria exacerbada, tais como: falar, comprar, escrever, limpar, amar. Nesta fase acentua-se a minha mania de limpeza e varro várias vezes o mesmo lugar.

É nesta fase que recomeço meus exercícios físicos, cuido da dieta, pinto ou corto o cabelo, faço depilação, arrumo as unhas em cores, atendo telefone, saio com as amigas.

Se vou fazer compras acabo comprando coisas que nem vou usar como por exemplo roupas, sapatos, bolsas, óculos. E me arrependo depois... Juro que não faço mais, mas acabo fazendo igual no próximo surto compulsivo.

Tudo isso que (falei) escrevi tem conseguido aparecer em doses controladas, se é que se pode falar desta maneira, já que faço tratamento psicoterápico e farmacológico. Ou seja: vou ao psiquiatra regularmente e tomo medicação apropriada.

Aceitei que tenho o transtorno bipolar e sobrevivi ao preconceito de ser uma interna de clínicas psiquiátricas e de ter feito o tratamento por eletrochoques (ECT). Já falo normalmente (?) da minha "doença", embora nem sempre meus ouvintes achem a coisa tão natural quanto o é para mim.

Os que estão mais próximos de mim me entendem e me aceitam com minhas manias e depressões.

Não posso ficar sem meus comprimidos e/ou terapia para meu próprio bem e dos que me rodeiam, mas consigo ter uma vida praticamente normal, respeitando minhas limitações. Quem me vê nem diz que eu sou assim. Disfarço bem.

 

(10 de outubro/2008)
CooJornal no 602


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br

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