16/07/2021
Ano 24
Número 1.230



 

ARQUIVO
PEDRO FRANCO

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As árvores morrem de pé




Duas premissas. Vou à crônica de contexto pessoal. Que crônica não é? Essa é mesmo pessoal. Pelo título não esperem que vá me ocupar da conhecida peça teatral de Alejandro Casona e sim de algo que aconteceu comigo. E olha aí o pessoal apregoado. Tenho três netos e um bisneto, um três a um, já que dois netos são Raphael e Maurício e o bisneto, recém-nascido, é o Guilherme. Que é filho da Mariana e o bis faz cinco meses, em 06/07/2021, amanhã. E que tem a família com árvores? Genealógica não será. Vou entrar por árvore e não vai ser sobre as figueiras da minha rua Professor Valadares, que já decantei. A árvore foi presente. E presente dado em época muito propícia. Saber presentear é arte. Costuma-se escolher o presente pelo que se gosta, quando o bom senso recomenda que o presente faça coro com o gosto do presenteado. E achar esta preferência é que é o busílis. E também a época do presente é importante. Sábios são aqueles que presenteiam fora das datas convencionais. A maioria se lembra nos aniversários, natais e mais quanta data o comércio arranja. Dia disto, daquilo e não se esqueçam de datas relacionadas ao amor. Vide dia dos namorados. E eis que em fins de março de 2019 cai em nossas cabeças a desgraceira, que sem dúvida é a Covid 19. O último dia de família reunida foi 15 de março de 2020 e daí em diante haja lágrimas para lavar desgraças e atropelos. Todo pimpão voltei das férias no referido março e recebo amorosa ordem da família para, por enquanto, fechar o consultório. Com sua idade não dá para brincar de herói. Parentes doentes, stress geral, fuga para escrever, só que sobrava tempo demais, vontade de menos e preocupações familiares e pessoais não faltavam.

Eis que entra a árvore. Mariana, querida neta e sempre coloco que foi minha aluna, ótima aluna e não menos presenteadora, manda-me árvore bonsai. Como caiu bem! Até porque sempre pensara em ter uma e com as correrias pré pandemia nunca chegava o momento. Recebi e a árvore se tornou minha amiga. Ficou no meu quarto de bagunças, de onde digito agora. Comprei manual, estudei vídeos, podas, hidratação, três espécies diferentes de produtos de nutrição e até tesoura especial tive. E mesmo nos cuidados há divergências e a arvore pequena, linda, de linhas harmônicas, continuava verde “que te quiero verde” e até recitei Neruda para as folhinhas ariscas. Durante seis meses foi mar de rosas. E não mais que de repente o bonsai começa a ficar menos verde. De fato houve dias de muitas tarefas, que lhe dei sol demais, ou de menos. Nunca água de menos e é até possível que a tenha prejudicado na cura. E, há mais ou menos seis meses, não é mais verde, Galhos e folhas ficaram em marrom dourado. E a árvore de pé, ainda no meu dito escritório e me fazendo companhia. De pé e penso, Mariana, que o bonsai se encantou. E nem quero outra, que ainda a tenho e espero que me acompanhe pelos meus séculos e séculos. Amem. Outra não teria o encanto desta minha, que chamei Letícia. Letícia é alegria. Obrigado minha neta e viva Guilherme.


Comentários sobre os textos podem ser enviados ao autor, no email pdaf35@gmail.com 



Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Consultor da Clínica Médica C da Escola de Medicina e Cirurgia da UNI-RIO.
Remido da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Professor Emérito da UNI-RIO. Emérito da ABRAMES e da SOBRAMES-RJ.
contista, cronista, autor teatral
Conheça um pouco mais de Pedro Franco.



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