21/06/2013
Ano 16 - Número 845


 

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PEDRO FRANCO

 


 

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Pedro Franco



 Dois jovens e liturgias

Pedro Franco - CooJornal

Diga-se de início que ainda que o termo liturgia tenha origem religiosa, normas religiosas, rito, deu-se expansão ao significado e fica sendo normas a que nos devemos ater, segundo um cargo, ou condição de vida. Premissa apresentada, vamos aos dois jovens. Vinha no trânsito e com vagares para olhar nos em volta. Um negro novo, alto, magro, mochila pendurada no ombro, camisa idem, andava de “skate” entre os automóveis. Cabeça em pé, ágil, atento, dono do mundo. Do lado direito do meu C3, linda moça, só, em automóvel novo e de luxo. Face de depressão, ou tédio. E pude olhá-la bem, que os veículos estavam parados. Morena e negro deviam ter idades semelhantes e eram contrastes na paisagem matinal. Menos de vinte anos. Um era o dono do mundo, nela o planeta parecia lhe pesar nos ombros. Que fazer? Engrenar primeira, que o fusca da frente andara. E não era sobre os dois jovens que ensaiava a crônica no bestunto. Meu tema era que cada um se apegasse à própria liturgia, fato raramente ocorrido nos tempos atuais. A desfaçatez de certos homens púbicos, e mulheres, serve de exemplo. Nem hipocritamente mantém-se grudados à necessária liturgia das funções. E então pode parecer que faço a apologia da hipocrisia. Só que é aceito que a hipocrisia torna-se pleito que o vício presta à virtude. Então o político de antanho era alguém que ao menos sabia como devia se portar, enfim conhecia a liturgia do cargo. Hoje eles nem sabem como era certo proceder. Mostram logo suas carências republicanas, pontuais, malfeitas e corruptas (como digitar sem ir às palavras republicana e pontual?), sem mostrar qualquer pudor. E marqueteiros, que regram seus espirros, recomendam trocar termos, exemplo ato corrupto por malfeito e cacarejar ao menor ovo posto, mesmo se for aquele ovo de barro, engana galinha, que se colocava nos ninhos antigos e nem sei se existe mais. Volto aos meus dois jovens, alvos iniciais do texto. Será que os dois estavam apenas sendo litúrgicos? Ela fingindo-se entediada, blasé; ele tirando uma onda de dono do mundo, sabendo que caminhava para terrível anonimato e apenas mostrava-se o super-herói do momento, entre automóveis e jovens entediadas, quando não há motivo para tédio. Ou há? Que aventuras auspiciosas aguardam nossos jovens? Cuidados, moços e moças, há balas perdidas e paixões frustrantes em cada esquina de emoções desprezíveis e conselhos enganosos.



(21 de junho/2013)
CooJornal nº 845



Pedro Franco é médico cardiologista,
contista, cronista, autor teatral
pdaf35@gmail.com
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