23/06/2007
Ano 11 - Número 534


 

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TRABALHADORES “INVISÍVEIS” POR OFÍCIO
Eles passam incógnitos no dia-a-dia, chateiam-se por falta de reconhecimento, mas defendem o ganha-pão

* FABRÍCIO VALÉRIO

Maria Aparecida dos Santos, 44 anos, é invisível.
A chefe da limpeza de uma das unidades da Unimed não tem rosto. E sim um uniforme. Mas não é uma super-heroína.
Ela, como muitas outras pessoas que ocupam cargos subalternos, é vítima da invisibilidade pública. São trabalhadores braçais que não são "vistos" pela sociedade.
"Eu já me acostumei. No começo ficava ressabiada. Pensava: 'Será que é comigo?'. Hoje acho engraçado", diz Maria Aparecida. “Achava que era despeito, mas agora vejo que é indiferença mesmo”, completa.
Para Maria Aparecida, não ser notada é rotina. "Acontece sempre e com gente de todos os níveis", diz. Certa vez, num banco, ela cruzou com um médico. Ambos haviam trabalhado no mesmo lugar durante anos. O doutor não a reconheceu. Ela cumprimentou.
Ele olhou e, depois de alguns longos e constrangedores minutos, finalmente a "viu". "Ele nem se deu conta que eu já não trabalhava no mesmo lugar que ele há oito meses", diz Aparecida.
No ambiente onde trabalha, Maria Aparecida circula por todos os setores. É impossível não ser notada. Entre profissionais da saúde, trajados de branco, ela passa com o uniforme verde. "Eles reconhecem o uniforme e não sabem quem está nele", diz.
Para complementar a renda mensal, de aproximadamente R$ 600, Maria Aparecida cozinha em jantares. Num deles, estavam alguns colegas de trabalho. Elogiaram a comida e queriam conhecer a mulher com as "mãos de ouro".
Maria Aparecida foi apresentada aos convidados pela anfitriã. Os colegas presentes ao jantar não a reconheceram. Ela fez questão de lembrá-los. Não adiantou. "Eles perguntavam: Você trabalha mesmo na Unimed? Como é que eu nunca vi?", lembra.
Não é de hoje que Maria Aparecida sofre com a indiferença. Quando mais jovem, ainda trabalhadora rural, não era reconhecida pelas próprias amigas.
“Aos sábados, ia às discotecas na cidade. Me vestia completamente diferente dos trajes usados na roça. Passava pelas minhas amigas e nada. No dia seguinte, estávamos na roça trabalhando juntas", lembra.
"As pessoas fazem questão de não notar porque não somos da mesma categoria”, diz Maria Aparecida. Ela não se esquece de um professor que falava sobre a importância do estudo para fortalecer a identidade.
"Ele dizia que quem não estudasse nunca ia ser visto", afirma a chefe de limpeza. Mesmo com o ensino fundamental completo a situação permanece. “Até hoje não consegui ser vista, mas gosto do que faço", conclui.

CONVÍVIO PROVOCA INVISIBILIDADE

Foi no convívio com garis que o psicólogo Fernando Braga criou o conceito de invisibilidade pública.
Durante nove anos, ele varreu as ruas da Cidade Universitária em São Paulo. Ainda estudante, Braga decidiu conhecer de perto a vida dos responsáveis pela limpeza do campus da USP (Universidade de São Paulo).
A atividade era requisitada por uma das disciplinas do curso de psicologia. A experiência transformou-se em tese de mestrado e depois em livro (Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social, 2004).
De forma geral, a tese de Braga afirma que trabalhadores subalternos, geralmente braçais, são invisíveis à sociedade. "São pessoas submetidas a não aparecer. É como se o rosto delas sumisse", diz. "Elas vestem um uniforme e desaparecem", completa.
Segundo Braga, isso se dá pela forma como é estru¬turada a sociedade capitalista. "Na nossa sociedade, os trabalhadores braçais são delegados a pessoas cuja intelectualidade são tidas como inferiores", diz.
"É a escravidão com outro nome: trabalho assalariado", denuncia.
Braga repudia a idéia de valorização do trabalho dos profissionais da limpeza pública. "Quando se diz que é necessária a valorização dessas profissões, com salários melhores, por exemplo, está se tentando submeter ainda mais as pessoas a esta ocupação humilhante."

"SOU GARI E NÃO ME IMPORTO"

"Se o chão está limpo ninguém fala que o gari limpou. Mas se estiver sujo, todo mundo lembra de mim.", diz mas a maioria ignora", diz Luis Antônio Amorim, 34 anos, funcionário público que trabalha no setor de limpeza urbana há 11,5 anos. Há dez anos, varre ruas com empenho e dedicação. Todos os dias, até às cinco da tarde, Amorim deixa limpo seu trecho de 5.115 metros quadrados. Passa sempre em frente aos mesmos lugares.
Lojas, escritórios, prédios comerciais estão no seu caminho profissional. Mas quase ninguém consegue perceber a sua presença. "Algumas pessoas reconhecem, mas a maioria ignora", diz.
O trabalhador já foi auxiliar de produção em indústria de grande porte e chapeiro em lanchonete, mas o que gosta mesmo é do trabalho como gari. "Não me importo. Por incrível que pareça, gosto da minha profissão", diz Amorim que tem salário mensal de R$ 409.
"Nunca fui alvo de preconceito direto. Ou nunca percebi", completa. "É melhor que seja assim."


* Fabrício Valério é jornalista da agência BOM DIA