23/06/2007
Ano 11 - Número 534


 


ARTE DO PRÓPRIO BOLSO
Longe do circuito comercial, artistas locais bancam suas produções pelo prazer de ter um trabalho materializado

* LULY ZONLA

Sonho de artista custa caro e demora para se tornar realidade. O acesso às grandes gravadoras e editoras é privilégio de poucos e a caminhada em busca de patrocínio é árdua e muitas vezes não rende frutos.
A solução encontrada por uma parcela de artistas de diversos segmentos é bancar o sonho com recursos próprios.
O músico Bitenka lançou em junho o seu CD "Madeira". Juntou as economias e contou com eventos realizados pelos amigos para completar os gastos.
Os discos, principalmente na era digital, são alvo de muitas produções independentes. O guitarrista Marcos Pópolo, 33 anos, gravou um CD em 1996.
O sonho de menino custou R$ 9 mil. Isso porque ele fez os arranjos, ganhou letras e não precisou pagar os 23 músicos que o acompanharam. Todos eram amigos.
No final do projeto até fizeram uma vaquinha para saldar algumas contas que sobraram do álbum "Rock and Roll World".
"Valeu a pena registrar o momento, mas foi muito cansativo", avalia.
Pópolo conta que, do investimento total em 1,2 mil cópias, recuperou 80%. .
O mesmo não aconteceu com a cantora Rachel Queiroz, que ainda tem em casa mil CDs "Música Brasileira", gravados em 1997, cujo show de lançamento foi realizado em 1999.
Rachel casou-se, teve um bebê e virou mãe de família em tempo integral.
Ela admite que pagou caro por seu sonho: R$ 20 mil. "Hoje gastaria a metade do dinheiro para fazer um bom trabalho", calcula.

O guitarrista e violonista Fabiano dos Santos, 31, conhecido no meio musical como Mr. Fabian, começou a gravar, há dois anos, "Crazy Ways", um CD triplo com 50 composições próprias.
Para concretizar o projero inédito e ousado, o guitarrista já gastou R$ 15 mil. Suas economias se foram. Os pais deram sua colaboração e agora ele dá aulas de manhã, à tarde e à noite para finalizar o trabalho.
O tempo também é vilão em seu projeto. "Eu não tenho banda, dou aula o dia inteiro, e cada faixa ou tem músicos convidados ou contratados. É muito horário para conciliar", lamenta.
O músico conta que em sua jornada também já vendeu equipamentos para juntar grana e está certo de que precisará de patrocínio para fazer a papelaria do projeto.
"Tenho que pelo menos tentar, ir atrás."
E tem mesmo. O setentão e consagrado Tom Zé, que este ano já ganhou uma série de prêmios, acaba de lançar "Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício", título do disco que bancou do bolso, com todo o jeito de independente.

PÁGINAS TÊM PATROCÍNIO AUTORAL

Joaquim Simões, Roldão Senger, Osni Machado Neves, Isolina Brezolin Vianna e Munir Zalaf são escritores que desembolsaram as economias para autografar seus textos e versos.
O escritor Munir Zalaf disse que lançar um livro é um exercício de coragem dupla: a primeira é escrever e a segunda é publicar.
"No meu caso foi tripla. Tive que superar minhas condições de autodidata", afirma o poeta, que tem apenas o diploma do primário.
Em 2004, pegou dinheiro da poupança e pagou R$ 3 mil por 300 exemplares do livro "Soluços da Minha.Vida" (Kayros Editora).
O dinheiro da venda da primeira remessa bancou a segunda edição, com 500 exemplares.
As economias também realizaram o sonho do professor de matemática Antonio Vieira, que lançou o livro "O último Romântico" (EPA Editora).
O autor conta que economirou R$ 2,6 mil, em três anos, para os mil exemplares, vendidos a R$ 12.
Em sua estréia no mundo literário, Catarina Carvalho também arcou com as despesas de suas "Crônicas de Gaveta" (Editora Pallotti). Parte das vendas dos mil exemplares será revertida para a manutenção da entidade social Apiece.


* Luly Zonta é jornalista da agência BOM DIA