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Saúde e os avanços da tecnologia
Marcos Hume
O avanço da tecnologia no setor da saúde vem provocando uma discussão sobre
quais os caminhos ideais para a incorporação de novos equipamentos e produtos
médico-hospitalares no país. No meio desse debate estão questões espinhosas: o
governo deve gastar com a importação de equipamentos de última geração, que
ajudam a salvar algumas vidas, ou investir na melhoria da saúde pública com os
tratamentos tradicionais? E como fica o equipamento que ajuda na prevenção e,
mais adiante, evita custos com internações e exames? O mesmo dilema, em maior ou
menor proporção, enfrentam os hospitais particulares que atendem através de
planos de saúde e os centros de diagnósticos.
O processo de incorporação de novas tecnologias está em fase inicial, mas se
trata de um processo irreversível. Os setores público e privado estão
desenvolvendo iniciativas para melhorar a entrada desses novos equipamentos e
produtos para a saúde. Mas esbarram, na maioria das vezes, na política adotada
pelas autoridades do setor e no impacto econômico desse processo.
O custo é um dos principais fatores que o governo utiliza para barrar as novas
tecnologias. O problema, nesse caso, deve ser avaliado com muito cuidado e em
longo prazo. Logicamente, ao trazer um equipamento de última geração, o impacto
econômico em curto prazo será alto. Mas é preciso ressaltar que este mesmo
equipamento pode representar uma diminuição de custos em médio ou longo prazo.
Uma nova tecnologia que previne doenças pode efetivamente reduzir o número de
internações e intervenções cirúrgicas lá na frente.
A restrição política é outro fator intrigante. Hoje, o Ministério da Saúde e a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estão criando mecanismos para
assegurar maior controle na entrada de novas tecnologias que para o setor de
importação poderá significar barreiras não alfandegárias.
Apesar de o governo ter criado a Comissão para Incorporação de Tecnologias em
Saúde (CITEC), para avaliar tecnicamente e economicamente o impacto das novas
tecnologias, a indústria ainda encontrará dificuldades. Ainda falta uma
metodologia adequada para essas avaliações. Faltam ainda profissionais com a
correta capacitação tanto por parte do governo como das indústrias. Existem
oportunidades de melhorias no sistema de avaliação e aprovação das novas
tecnologias. Por exemplo, a comissão ainda não estabeleceu prazos para as
avaliações nem critérios de priorização das mesmas, o que dificulta a indústria
e prejudica toda a cadeia envolvida.
A não introdução de novas tecnologias no sistema, principalmente quando não há
critérios bem definidos, tem como principal prejudicado o paciente, e o
conseqüente o sistema de saúde que poderá com o tempo, se tornar defasado em
relação ao mundo.
A exemplo do Japão, que em dois anos, entre 2004 e 2006, decidiu fechar suas
portas às novas tecnologias. Em 2004, o país havia introduzido 192 novas
tecnologias. Entretanto, em 2006 permitiu a introdução de somente 8 inovações no
setor de saúde. O resultado desse processo gerou uma defasagem tecnológica
prejudicial ao sistema. Pois hoje há gerações de produtos e procedimentos em
cardiologia, disponíveis na Índia e China que ainda não estão incorporadas no
Japão. Os profissionais da saúde que buscam treinamento e novos conhecimentos
fora de seu país retornam frustrados, pois sabem que não encontrarão estas
tecnologias disponíveis em sua pátria mãe.
Esse quadro apresentado no Japão indica que é essencial a existência de
critérios bem definidos na avaliação de novas tecnologias na saúde. E o Brasil
precisa caminhar para uma metodologia eficiente, pois corre o risco de deixar de
tratar seus pacientes adequadamente, caso adotem critérios unicamente baseado em
custos e sem análises metodológicas, com vistas a resultados e de longo prazo
para o sistema. Um dos papéis da indústria, além de proporcionar todo o
conhecimento tecnológico, é o de alertar o governo para esse horizonte perigoso.
A indústria de equipamentos médico-hospitalares está aberta ao debate com toda
cadeia envolvida com a saúde, com o objetivo de melhorar a estrutura de
informações e a metodologia utilizada na aprovação das novas tecnologias. O
diálogo, o planejamento e a implementação de novos métodos são fundamentais para
um progresso nos tratamentos de saúde tanto no setor privado, como no público.
Marcos Hume é gerente de economia da saúde e reembolso e coordena o Grupo de
Técnico de Trabalho de Avaliação de Novas Tecnologias da Associação Brasileira
dos Importadores de Equipamentos, Produtos e Suprimentos Médico-Hospitalares (Abimed)
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