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A cidade que inspirou as cores de Cézanne
Flávia Fontes

Em setembro de 1906, o pintor francês Paul Cézanne, em carta a seu filho, dizia
que Aixen-Provence oferecia paisagens com motivos belos e, assim, seus dias
passavam mais agradavelmente lá "do que em outra parte". Cézanne nasceu, em
1839, e morreu, em 1906, na cidade. Mas a constatação sobre sua beleza não é
apenas do pintor, que ajudaria a arte do século XX a se transformar. Os
habitantes de Aix valorizam o clima ameno e a presença constante do sol.
As cores vibrantes são típicas da região provençal, próxima ao mar da Côte d'
Azur. O pintor passou boa parte de sua vida na cidade e, ainda no colégio,
tomou-se amigo do futuro romancista Émile Zola. Sua ausência ocorreu durante os
anos em que tentou ingressar na Escola de Belas Artes, em Paris, entre 1861 e
1867. No entanto, o afastamento foi sempre interrompido por viagens entre a
capital e sua cidade natal.
Em suas telas há referências aos lugares e às cores que tanto orgulham os
moradores da região. A principal é a montanha de Sainte-Victoire. Cézanne
retratou-a em 11 óleos e 17 aquarelas, entre 1902 e 1906, quando manteve um
ateliê que lhe dava frente. Como há um predomínio de dias ensolarados em
Aix-en-Provence, estudantes e habitantes do local costumam aproveitar os dias
mais quentes para fazer piquenique aos pés da Sainte- Victoire. O programa pode
ser imitado, sem qualquer reprovação. O moradores de Aix-en-Provence acreditam
que a cidade é "a Paris da província". Os franceses consideram Aix o segundo
lugar mais caro do país, e sua fama de esnobe muito tem a ver com os altos
custos na cidade. Por isso, lojas de grifes sofisticadas adaptam suas vitrines
para as ruas estreitas e sinuosas de Aix-en-Provence.
Apesar dos cerca de 137 mil habitantes, a cidade antiga, o centro, é pequena e
pode ser visitada inteiramente a pé. Essa região, com seus amplos restaurantes e
cafés ao longo do Cours Mirabeau, a principal avenida, proporcionam aos
visitantes menos afoitos uma sensação de conforto. Durante os meses mais
quentes, na alta temporada, milhares de turistas passam pela cidade. Para quem
se incomoda com tanta gente, fora do verão europeu também é possível observar as
cores locais, que tanto surpreendem os mais atentos.
Tentar entrar em contato com a história da cidade é uma das melhores maneiras de
conhecê-la. Os rastros de Paul Cézanne, por exemplo, estão por todos os cantos
do centro de Aix-en-Provence - cidade com mais de 2 mil anos de história, que
foi fundada em 122 a.C. Procurando o local de nascimento do pintor, seus cafés
preferidos, a casa em que morreu e outros lugares de seus relacionamentos,
encontram-se todas as outras relíquias dessa região aglomerada da cidade.
O ponto de partida pode ser o Cours Mirabeau. Ladeada por árvores, a avenida
também é intercalada por fontes - o nome da cidade é uma referência à água:
Aquae Sextie, depois Ais en Provenceu e, por fim, Aix-en-Provence. Para quem
dispõe de tempo, as Thermes Sextius oferecem conforto e luxo com uma fonte de
águas quentes conhecida desde os romanos. As termas oferecem diferentes tipos de
tratamentos hidroterápicos, em um espaço de mais de 3 mil metros quadrados.
No próprio Cours Mirabeau alguns endereços fizeram parte da vida do pintor. A Chapellerie du Cours Mirabeau, no número 55, foi endereço do pai de Cézanne, que
também aprendeu o ofício de fazer chapéus. Ao lado da chapelaria, Le Café des
Deux Garçons, número 53, foi local de muitos jantares de Cézanne, onde ficava
horas conversando, segundo relatos da época. Ainda hoje o local continua com
seus cafés, almoços e jantares, mantendo os detalhes em verde das cadeiras
grandes, generosamente confortáveis. No sul da França, o hábito de ficar em um
café durante bastante tempo ainda não perdeu força. ''É o esporte favorito",
costumam dizer. Mesmo com uma quantidade razoável de endereços disponíveis, em
dias de sol é preciso disputar uma vaga.
Na mesma alameda estão, também, Le Café Oriental, número 13, e Le Café Clément,
número 44, antigo endereço chique da cidade, freqüentado, no início do século
XX, por militares, estudantes e habitantes ricos.
Paul Cézanne freqüentou a escola de desenho do museu Granet, o principal da
cidade, que fica na mesma direcão da escola que o pintor freqüentou. Bem perto
do Cours Mirabeau, o museu Granet tem uma coleção restrita, com algumas peças do
pintor. Ao lado está a igreja Saint-Jean de Malte, onde foi celebrado o funeral
de sua mãe. Do outro lado do Cours Mirabeau uma outra igreja, a Madeleine, foi
palco de muitas cerimônias da família: o batismo de Paul e sua irmã, Marie, e o
casamento de seus pais.
Para quem se interessa, o Hôtel de Ville, um dos edifícios históricos mais
bonitos, bem no miolo da vila, guarda os documentos de nascimento, casamento e
morte de parte da família Cézanne. Em volta desse edifício, que é a antiga
prefeitura, o visitante pode desfrutar de paisagens tipicamente provençais,
restaurantes, lojas de doces tradicionais e até uma feira tradicional com
flores, verduras e frutas, sempre às terças-feiras.
Depois de caminhar pela cidade, pode-se também encontrar rastros de Cézanne ao
redor de Aix-en-Provence: a montanha Sainte- Victoire, a casa de sua família e o
ateliê onde o pintor trabalhou na fase final de sua vida. Para se chegar a
esses lugares é preciso uma condução. Nos meses de alta temporada (maio a
setembro), o escritório de turismo oferece um ônibus que percorre o roteiro.
Quem alugar um carro pode seguir as indicações com o nome de Cézanne em placas
espalhadas no caminho.

Jas de Bouffan é o nome da propriedade rural comprada pelo pai de Cézanne, cujos
castanheiros aparecem em quadros do pintor. O nome provençal "jas" significa
curral. Desde meados da década de 90, os passeios pela antiga propriedade foram
oficializados. Um pouco mais distante, o ateliê do pintor foi transformado num
pequeno museu. Tudo o que continha, à época da morte de Cézanne, está lá: seus
instrumentos de trabalho, os móveis. Hoje, o visitante encontra vídeos sobre o
pintor. Por fim, há a montanha Sainte- Victoire, que vale um passeio, com seus
largos verdes, sua calma tipicamente provençal.
Quem viaja fora da alta temporada não precisa se preocupar. A temperatura média
da cidade é 17° C. Mesmo durante o inverno, restaurantes e cafés mantêm suas
mesas ao sol. E as chuvas, freqüentes no norte, não têm a mesma intensidade no
sul.
Flávia Fontes é jornalista
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