01/09/2007
Ano 11 - Número 544



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REPÓRTER

Os dez anos que deixaram o mito Diana desbotado
Marc Roche


Onde estava você no dia da morte da princesa Diana? Assim como para o assassinato de Kennedy ou a tragédia de 11 de setembro de 2001, todos os contemporâneos são capazes de responder a esta pergunta. Todo mundo ainda tem na memória o último fim de semana de agosto de 1997, a imagem fixa da Mercedes S-280 estraçalhada contra o décimo terceiro pilar do túnel de l'Alma, em Paris, e o anúncio da sua morte pela BBC às 4h44, seguido pela execução do "God Save the Queen".

Em seguida, a semana maluca durante a qual o reino chorou "a princesa dos corações", para retomar a expressão de Tony Blair; o imenso canteiro de flores na frente do palácio de Kensington; a revolta do povo em Londres contra os Windsor; os funerais que foram acompanhados por três milhões de pessoas e por dois bilhões de telespectadores pelo mundo afora, a rainha, que saiu do seu castelo para acompanhar a cerimônia na rua, e que inclina ligeiramente a cabeça na passagem do cadafalso.

Turistas lêem mensagens em memória à Diana diante de monumento na Pont de l'Alma

À primeira vista, não restou grande coisa do mito de Diana. Uma "Dianalândia" kitsch em Althorp, nos Midlands, uma fonte em Hyde Park que volta e meia fica emperrada, uma pequena área de jogos para crianças perto do palácio de Kensington, um sinistro memorial aos pés de uma escada da grande loja de departamentos Harrods. É só isso, ou quase. No que vem a ser um sinal desse desinteresse, as doações para o Fundo do Memorial de Diana foram definhando, caindo de 100 milhões de libras em 1998 para 222.000 libras em 2006 (de R$ 400 milhões para R$ 880.000). O número de visitantes no domínio de Althorp caiu pela metade entre 2004 e 2007.

Em função da comemoração, cerca de quinze novos livros a respeito de Diana foram publicados desde o início deste ano. Mas poucos foram aqueles que se prontificaram a comprá-los. Muito aguardado, "Diana Chronicles", o livro de Tina Brown, foi massacrado pela crítica, em razão da inexistência de elementos novos. Além disso, Sarah Bradford, a biógrafa nomeada oficialmente pela família real, acusa a célebre jornalista de ter plagiado o seu próprio livro. Aquele de Kate Snell, "Diana: Her Last Love" ("O Último Amor de Diana"), dedicado ao cardiologista de origem paquistanesa Hasnat Khan, o amante que a havia recusado, foi publicado em meio à indiferença generalizada. Por fim, do lado oficial, as autoridades optaram por um serviço mínimo: um ofício religioso está agendado para 31 de agosto em Londres e uma pequena exposição em memória da princesa foi organizada no palácio de Kensington.

10 ANOS SEM DIANA

A falecida, que tinha 36 anos ao morrer, simplesmente desapareceu da paisagem pública. Contudo, em 2002, a princesa mártir havia sido classificada no terceiro lugar no quadro de uma pesquisa da BBC sobre os grandes britânicos da História. A sua morte, segundo revelara uma outra enquete, era considerada pelo público como o principal evento inglês do século 20, na frente do final da Segunda Guerra Mundial e do direito de voto para as mulheres. Atualmente, a mesma pesquisa obteria outros resultados.

Então, o que foi que aconteceu durante esses dez anos? A nação está hoje constrangida com a sua identificação com uma personalidade que, por mais que ela estivesse imbuída de compaixão, revelou-se manipuladora, e que, por mais que ela tivesse sido vítima da máquina real, sofria também de uma mania de perseguição.

Em seu livro intitulado "Faking It - The Sentimentalisation of Modern Society" ("Fingindo - O Sentimentalismo Crescente na Sociedade Moderna"), Anthony Hear, um professor de filosofia da universidade de Bradford, enxerga na emoção coletiva de uma parte dos britânicos por ocasião da morte de Diana, "o efeito do apetite voraz do país pela manifestação dos sentimentos; a denegação da realidade que atinge atualmente todos os aspectos da nossa existência". Este antigo presidente do muito reputado Instituto Real de Filosofia afirma que "a beatificação pessoal de Diana era igualmente aquela dos seus valores - a proeminência do sentimento, da imagem e da espontaneidade em relação à razão, a realidade e a reserva".

Um outro elemento explica esse desinteresse. Depois dos funerais, lord Spencer, o irmão de Diana, que proferiu um discurso anti-Windsor na abadia de Westminster, e Mohammed Al-Fayed, o pai do amigo da princesa que morreu junto com ela, Dodi, alcançaram os píncaros da popularidade. Contudo, os seus erros acabarão fazendo com que a opinião pública mude em favor dos Windsor.

O divórcio do primeiro, amplamente repercutido pela mídia, na África do Sul, que ocorreu apenas dois meses depois do funeral de Diana, foi danoso para ele. Mas aquilo não foi nada ao lado da acusação, amplificada pela máquina de comunicação do palácio de Buckingham, de ganhar dinheiro explorando a memória da sua irmã. Isso porque apenas 10% das receitas da "Dianalândia" são repassadas para a Fundação Diana, criada em proveito das crianças doentes, das pessoas que sofrem de deficiência, e das vítimas das minas.

O outro vilão da saga Diana é Mohammed Al-Fayed. Ontem aplaudido, ele é vaiado hoje. As suas acusações fantasiosas contra a família real chocam. As segundas intenções comerciais não devem ser descartadas quando se considera a sua tese de um complô tramado pelos serviços secretos da Sua Majestade por ordem do príncipe Philip, que visaria a impedir que a mãe do futuro rei se casasse com um muçulmano. No seu relatório publicado em 14 de dezembro de 2006, o antigo chefe da Scotland Yard, lord Stevens, descarta categoricamente a teoria da conspiração.

A "Operação Paget" conclui que não existe prova alguma que permita estabelecer uma conexão entre o marido da rainha e os serviços secretos britânicos, o MI6, ao contrário do que afirma Mohammed Al-Fayed. Se esta conclusão for confirmada pelo juiz investigador na conclusão da reabertura do inquérito judiciário, em outubro, o magnata egípcio poderia ser condenado a pagar colossais indenizações às partes que deram queixa contra ele.

No que vem a ser mais um elemento que confirma a queda do ícone "Di", o sucesso do filme de Stephen Frears, "The Queen", em que a rainha é a heroína, sublinha a reconquista da opinião que foi orquestrada pelos Windsor. A monarquia modernizou a sua imagem, seguindo as orientações de exímios conselheiros em comunicação. Uma maioria dos súditos gostaria agora de ver o príncipe Charles suceder à sua mãe, ao lado de Camilla - rival de Diana - que assumiria o título de rainha.

Os britânicos voltaram a ser legitimistas, e seguem considerando a monarquia, apesar dos escândalos dos anos 1990, como um ponto fixo em meio à tormenta planetária.

 


Tradução: Jean-Yves de Neufville