15/09/2007
Ano 11 - Número 546



ARQUIVO

REPÓRTER

OBSERVAÇÕES À MARGEM DA BIENAL


ARMINDO TREVISAN


A realização da Bienal do Mercosul pode favorecer uma maior consciência sobre determinados aspectos das artes visuais. Essas deveriam merecer maior atenção da parte dos educadores - e do público em geral.

Desde o advento da fotografia, a que se seguiram seus desenvolvimentos específicos, como o cinema, o vídeo, a Internet, o universo visual de nosso mundo não é mais o mesmo. Já na época do surgimento da fotografia, alguém anunciara o desaparecimento da pintura. Desapareceu a pintura? Admitiremos, porém, que ela sofreu o impacto da fotografia. Partamos, então, disso: das modificações do olho moderno e contemporâneo.

As artes visuais, bidimensionais ou tridimensionais, são, antes de tudo, linguagem. Têm uma sintaxe, um modo singular de expressão. Linguagem aprende-se. Ninguém nasce sabendo chinês ou português. Por sua vez, a linguagem aprendida depende de muitos fatores, inclusive geográficos e históricos. Segue-se que a linguagem das artes visuais precisa ser aprendida a cada nova geração. Se descuidarmos isso, teremos analfabetos visuais em número crescente. Se um menino ou adolescente nunca ouviu falar de Michelangelo ou Rembrandt, as obras desses gênios não existirão para ele. E se as viu fora de contexto, sem o mínimo de preparação, pode ser que tais obras não lhe digam grande coisa.

Minha experiência como professor de História da Arte na UFRGS me convenceu de que, além da sensibilidade natural do aluno, existe um latifúndio cerebral imenso para ser explorado. Cabe aos professores estimular o aluno, cultivar nele a admiração, qualidade que tem sofrido uma espécie de extinção. Aluno que não admira é aluno que não aprende. Já Aristóteles dizia que a thaumazein, a faculdade de admirar-se, é o princípio da filosofia. Quem se admira quer penetrar o segredo de sua admiração.

Em segundo lugar, a fotografia ocasionou uma saturação de imagens. Em alguns casos, uma overdose. É preciso voltar a uma dieta visual, para se poder redescobrir o valor das artes visuais. Nesse sentido, damos nossos parabéns à direção da atual Bienal do Mercosul, que preferiu menos obras a uma acumulação excessiva delas. É preciso mais tempo para cada obra. Esse tipo de atenção, que a televisão vulgarizou, o da rotatividade das imagens, não contribui para fomentar a cultura óptica. Abster-se de imagens é, atualmente, um princípio de sabedoria e de fruição estética.

Em terceiro lugar, vacinar-se contra a tendência ao espetáculo, ao ciclópico, ao desmesurado. A sociedade midiática tenta persuadir-nos de que a quantidade (por exemplo, o número de pessoas numa fila, à espera de uma visita a um museu) sinaliza importância e sucesso. Nem sempre. Uma parte disso é devida à propaganda; outra parte, ao desejo de estar à la page; outra ainda, ao esnobismo. É necessário fomentar o cultivo de uma certa independência de sensibilidade, de uma autonomia pessoal, desde que precedida por uma cesta básica de noções de cultura estética. Caso contrário, somos cidadãos da república da arrogância. Cada espectador deve estar consciente de que possui gosto, e de que esse gosto pode se tornar bom gosto, na medida em que o indivíduo estiver disposto a ter cultura. Dizia Kenneth Clark: o critério que faz alguém escolher uma gravata ou um vestido é da mesma natureza que o critério que nos aproxima de uma grande obra de arte. Desmistificar, pois, a pseudo-aristocracia do gosto de pseudo-intelectuais, deve ser propósito didático.

Em quarto lugar, acautelemo-nos contra lugares-comuns. Dizer, por exemplo, que, no âmbito doméstico, não se tem mais espaço para objetos de arte é uma falácia. Sem dúvida, nosso espaço pessoal diminuiu. Fatores de ordem econômica restringiram nosso "lugar ao sol", num mundo que não se expandiu desde que surgiram os primeiros homens, ou, se preferirmos uma referência histórica mais próxima, desde que os sumérios inventaram a escrita. Trata-se do mesmo mundo. Mas o espaço que então havia hoje é repartido por quase 6 bilhões de pessoas. O espaço para as artes visuais precisa ser reinventado nos nossos apartamentos. Precisamos achar algo para o que é sugestivo e belo, relegando coisas de consumo para seu devido lugar. Importa despertar nas pessoas o interesse por tais expressões privilegiadas. Daí a necessidade de um ensino, mais intenso, de História da Arte.

Concluindo: façamos um esforço para tornar a Bienal uma oportunidade para a cultura visual em nosso Estado. Tudo dependerá da maneira de iniciar as crianças nessa cultura. É melhor menos informação - e mais provocação emotiva.