15/09/2007
Ano 11 - Número 546



ARQUIVO

REPÓRTER

Na China, a revolta de suas 11 amantes manda para a prisão o prefeito de Baoji
Brice Pedroletti


Uma cidade industrial de urbanismo ingrato, situada a leste de Xian, na região do Shanxi, Baoji adquiriu uma notoriedade inesperada por conta das bandalheiras do seu mais alto dirigente, Pang Jiayu, 63 anos: o caso é justamente daqueles que a imprensa chinesa e os blogs adoram. As suas onze amantes conseguiram pôr fim ao seu reinado, denunciando, com provas para escorar as suas acusações, as malversações perpetradas por este homem que havia atribuído para si um "droit de cuissage" (direito a uma noite de sexo) sobre as mulheres dos seus subalternos.

Tudo começou em 1994, quando Pang Jiayu se tornou prefeito de Baoji. Ele foi movido pelo desejo de vingança contra um dos seus colaboradores, apontado pelo pseudônimo de Li Simin, que no passado havia sido o seu superior. Para comemorar as festas do ano novo chinês, Pang Jiayu propôs para os seus empregados uma escapada até um local turístico nos arredores da cidade, e lhes recomendou trazerem consigo as suas mulheres.

À noite, Li Simin recebeu uma chamada: ele precisava retornar a Baoji para resolver um problema urgente. Então, Pang Jiayu foi até o quarto da mulher de Li Simin, Zeng Qian (um outro pseudônimo), para quem ele mostrou fotos do seu marido nos braços de prostitutas. Naquele momento, ele teria colocado uma droga no seu chá. A donzela teria despertado no dia seguinte, com o prefeito, nu, ao seu lado.

Em Baoji, Pang Jiayu adquiriu rapidamente o apelido de "prefeito da braguilha", enquanto os funcionários interessados em obter uma promoção devem enviar a sua mulher "para conversar a respeito" com o seu chefe.

Favores e propinas

Em 1998, Pang Jiayu foi nomeado secretário-geral do partido em Baoji, e com isso, passou a deter todos os poderes. De forma cada vez mais abundante, ele seguiu distribuindo favores e cobrando propinas de seus interlocutores, principalmente através da atribuição de contratos municipais.

Li Simin foi nomeado à frente de uma sociedade de investimento parcialmente estatal. Neste posto, ele foi assessorado por dois outros funcionários cujas mulheres também são obrigadas a satisfazer o apetite sexual de Pang Jiayu. Um importante projeto de infra-estrutura, no setor da água, se revela duas vezes mais caro do que o previsto. A obra apresenta muitos defeitos.

Nesse meio-tempo, Pang Jiayu foi promovido a uma patente ainda mais alta. De agora em diante, ele é o vice-presidente da assembléia consultiva do povo da província do Shanxi. Mas a companhia de investimento de Li Simin estava a perigo, fortemente endividada. As autoridades ordenaram que um inquérito fosse efetuado. Pang Jiayu conseguiu convencer os seus protegidos de que eles deveriam endossar toda a responsabilidade no caso, e que ele iria interceder em seu favor para reduzir as suas penas. Mas Li Simin foi condenado à morte, e os seus dois adjuntos a extensas penas de prisão.

Desesperada, Zeng Qian, a mulher de Li Simin, reuniu as onze amantes de Pang Jiayu; juntas, elas resolveram contar toda a verdade. Desde então, o antigo prefeito teve o seu nome acrescentado a uma lista que, nesses tempos de zelo anticorrupção (o 18º congresso do Partido Comunista está se aproximando), não pára de aumentar: aquela dos altos funcionários condenados por corrupção grave. Segundo a imprensa chinesa, 90% deles também são acusados de sustentar uma "ernai" (uma segunda mulher), uma tradição que tem vida longa na China.