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O que espera a Terra sem os humanos
Marc Bassets

Imagine um mundo sem humanos. Um dia, de repente, o Homo sapiens sapiens se
extingue. E então? Alan Weisman, um jornalista americano especializado em
ciência, passou mais de três anos viajando por todo o planeta, falando com
cientistas e especialistas para responder a essa pergunta.
Se o ser humano desaparecesse, conclui Weisman, a natureza demoraria pouco para
invadir as grandes cidades do planeta. Em dois dias a água inundaria o metrô de
Nova York. Depois as ruas rachariam. Aos cinco anos o fogo assolaria a cidade.
Aos 20, as principais avenidas teriam se transformado em rios. Em menos de 300
anos, cervos, ursos e lobos migrariam para a cidade. Os ratos que vivem dos
restos humanos e as baratas acostumadas à calefação dos edifícios
desapareceriam. A selva de asfalto acabaria se tornando uma selva de verdade, a
natureza ganharia terreno.
"Tentei averiguar o que restará do que criamos", explicou Weisman esta semana em
um teatro em Manhattan, para um público extasiado, durante um colóquio sobre "The
World Without Us" [O Mundo sem Nós], o livro que descreve como seria o planeta
sem os seres humanos. Esse foi exatamente um dos ensaios mais vendidos e
debatidos neste verão nos EUA, país onde, na esteira do documentário do
ex-vice-presidente Al Gore sobre a mudança climática, proliferam os cenários de
apocalipse ecológico.
O que restaria das obras humanas? De Nova York, pouco. Dentro de milhares de
anos, quando o gelo cobrir a cidade, restariam a Estátua da Liberdade e as
estátuas de bronze. Ficariam as cidades subterrâneas da Capadócia. Também o
túnel do Canal da Mancha e os rostos dos presidentes dos EUA esculpidos no monte
Rushmore. Em troca, a muralha chinesa - feita de material precário - e o Canal
do Panamá - "uma ferida que a natureza tenta curar", segundo declara ao autor um
funcionário dessa infra-estrutura - desapareceriam com segurança.
Weisman insiste no rastro envenenado do ser humano. O CO2 emitido em excesso na
atmosfera demoraria 100 mil anos para desaparecer. Os reatores nucleares das 441
centrais que existem no mundo se superaqueceriam e acabariam se incendiando ou
fundindo. A radiatividade duraria milênios.
O que irrita especialmente o autor de "O Mundo sem Nós" é o plástico. No livro,
Richard Thompson, um biólogo da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, diz:
"Imagine que toda a atividade humana parasse amanhã e de repente não houvesse
ninguém para produzir plástico. Só com o que já existe, e levando em conta como
ele se decompõe, será algo que os organismos encontrarão de forma indefinida.
Milhares de anos, certamente, ou mais".
"É uma loucura que nos dêem uma sacola de plástico cada vez que vamos ao
supermercado", Alan Weisman se indignou na apresentação do livro.
Apesar do sucesso de vendas, a obra recebeu críticas severas. "Agora que
decidiram que quase qualquer aspecto da existência humana é ruim para o meio
ambiente - dirigir, comer carne, acender a luz, ter filhos, respirar...-, os
verdes levarão o argumento até o limite. O problema é a existência humana",
escreveu "The Wall Street Journal" em um editorial.
De fato, Weisman insinua que a natureza poderia "sentir nossa falta" se nos
extinguíssemos. "Não competimos com o planeta", ele diz. "Fazemos parte dele".
Para que o planeta não se degrade mais, ele defende que cada família só tenha um
filho. E repete curiosas reivindicações, como a do Movimento pela Extinção
Humana Voluntária (VHEMT, na sigla em inglês).
Depois de constatar que um vírus dificilmente acabaria com todas as pessoas e
que a guerra também não o faria, além de que "matar é imoral", o VHEMT defende
que o ser humano deixe de se reproduzir. "Os últimos humanos", declara Les
Knight, fundador do grupo, "poderiam desfrutar de seus últimos pores-do-sol
tranqüilamente, com a consciência de que devolveram o planeta o mais parecido
possível com o jardim do Éden".
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