13/10/2007
Ano 11 - Número 550



ARQUIVO

REPÓRTER

Será que os cientistas descobriram a intuição?

Gerald Traufetter
Der Spiegel


O estresse é normal para os 5.500 cientistas e engenheiros do Laboratório de Propulsão a Jato. Eles sabem que sempre que tomam uma decisão, mesmo o menor erro pode ter sérias conseqüências.

Afinal, as lembranças de 1999 ainda estão frescas. Há oito anos, quando a sonda espacial Mars Polar Lander entrou na atmosfera de Marte, o contato por rádio foi repentinamente perdido. O satélite simplesmente desapareceu das telas do centro de controle. Quatrocentos milhões de dólares foram perdidos.

Os dois diretores encarregados do projeto estavam convencidos de que seriam demitidos sem cerimônia. "É como lidamos com erros em nossa cultura", disse Markus Ullsperger. Mas os diretores foram poupados, recordou Ullsperger, um pesquisador de cérebro do Instituto Max Planck de Pesquisa Neurológica, em Colônia. "E foi uma boa decisão", ele disse. "Afinal, milhões foram investidos no treinamento e educação deles".

Do ponto de vista da neuropsicologia, esta foi uma excelente decisão administrativa. Os erros, como Ullsperger está convencido, são na verdade uma das fontes mais valiosas de conhecimento. "Os erros do homem são seus portais de descoberta", já disse o escritor irlandês James Joyce, antecipando uma conclusão confirmada agora pela neurociência moderna.

Capacidade de detectar os próprios erros
Ullsperger, assim como uma dúzia de outras equipes de pesquisa ao redor do mundo, atualmente está estudando como o cérebro monitora e processa seus próprios erros. "Nosso cérebro tem a capacidade fascinante de detectar erros e, se já tiverem ocorrido, de aprender com a experiência", ele explicou.

O "error-related negativity" (ERN, negatividade relacionada ao erro) é um conceito que está cativando o mundo científico. Ele se refere a uma onda elétrica característica sob o topo do crânio, que pode ser medida sempre que o cérebro detecta que um erro foi cometido. Especialmente surpreendente é o fato do sinal ERN já começar a oscilar antes mesmo da pessoa tomar consciência do erro.

No início dos anos 90, Michael Falkenstein, um neurofisiologista da cidade alemã de Dortmund, observou pela primeira vez como a voltagem diminui pelo menos 10 milivolts em um grupo específico de células nervosas, e que isto ocorre apenas 100 milissegundos após uma pessoa cometer um erro -aproximadamente o tempo que seu cursor leva para responder ao clicar no mouse.

A descoberta de Falkenstein marcou o início de um período de estudo sistemático do detector de erro do cérebro. Ela abriu o caminho para novas teorias fascinantes sobre o motivo de desordens compulsivas ocorrerem ou por que algumas pessoas hesitam enquanto outras tomam decisões confiantes. Também forneceu nova luz ao desenvolvimento do vício.

De repente ficou claro por que uma pessoa consegue freqüentemente evitar cometer um certo erro baseado apenas em uma sensação visceral. "As experiências do sistema de erro fornecem precisamente o conhecimento subconsciente no qual a intuição é baseada", explicou Ullsperger.

Leve incômodo
O sistema de erro age de duas formas. Primeiro, ele intervém de forma corretiva quando uma pessoa cometeu um erro. Mas também tem capacidade de alerta. Quando ele percebe que uma ação pode não levar ao resultado desejado, este reconhecimento é manifestado como um leve sentimento incômodo.

Ullsperger e seus colegas planejam descobrir como exatamente isto funciona, usando um aparelho de ressonância magnética nuclear (RMN). As pessoas que se deitam no tubo de RMN realizam testes simples, como o teste de Eriksen-Flanker, uma ferramenta comum e bastante conhecida dos neurocientistas. No teste, fileiras de letras, como SSHSS, SSSSS e HHSHH piscam diante dos olhos das pessoas. Então lhes é pedido que apertem um de dois botões: o botão esquerdo se a letra no meio for S e o direito se for H.

Isto não é tão fácil quanto parece. As letras à direita e esquerda das letras principais confundem o observador. Especialmente quando dispõem de um tempo limitado para realizar a tarefa, as pessoas freqüentemente corrigem suas respostas poucos momentos depois. "Eles se comportam da mesma forma que nós quando falamos algo de forma errada, notamos o erro e então corrigimos rapidamente nossa sentença", disse Ullsperger.

Eletrodos em um gorro de borracha na cabeça da pessoa medem as ondas ERN típicas oscilando pelo cérebro durante este processo. Enquanto isso, o aparelho RMN observa a área do cérebro nas quais as células nervosas estão particularmente ativas.

Parada da produção de dopamina
O processo possibilita replicar a anatomia da detecção de erro. O que revela é que imediatamente após a onda ERN, o mesencéfalo repentinamente deixa de produzir dopamina. O sinal neuroquímico é transferido para o gânglio basal e conseqüentemente para o sistema límbico, no qual as emoções são geradas.

Os pesquisadores também descobriram outro cordão nervoso envolvido na detecção de erro. Ele leva a uma seção profunda do córtex, que então distribui amplamente o sinal no córtex cerebral. "Esta cascata envia os seguintes sinais para as posições executivas: Pare, algo está errado aqui! Cheque de novo e, se necessário, corrija imediatamente", explicou Ullsperger.

O neurologista baseado em Colônia também pode demonstrar que as pessoas que cometeram um erro no teste de Flanker demoram mais nas respostas posteriores. "As pessoas mudam sua estratégia de tomada de decisão", ele disse. "Elas começam a aprender com seus erros".

Mas o que a queda na produção de dopamina causa? O que dispara toda a cadeia de sinais? A explicação de Ullsperger é que sempre que o cérebro decide por uma ação específica, ele simultaneamente desenvolve a idéia das conseqüências esperadas. Se o resultado desejado ocorre, o cérebro recompensa a si mesmo com o hormônio do bem-estar, a dopamina. Mas se acontece algo inesperado, a recompensa é retida -uma forma de autopunição.

A percepção humana é altamente especializada para notar as contradições entre as ocorrências esperadas e as de fato. Um conjunto de pelo menos 1.000 células nervosas parece ser responsável por esta capacidade de comparar desejo e realidade.

Pesquisa de desastre
"É realmente notável, mas o cérebro realiza estes cálculos difíceis constantemente, enquanto lida com muitas outras coisas ao mesmo tempo", disse Richard Ridderinkhof, um neurocientista da Universidade de Amsterdã. Ele compara este processo com as ações de um motorista cujo veículo está gradualmente se desviando do curso. "Sem pensar muito, o piloto automático na cabeça do motorista corrige a direção do veículo".

Ridderinkhof está convencido de que estas descobertas também poderiam fornecer informações valiosas no campo da pesquisa de desastre. Acidentes aéreos, por exemplo, costumam ser atribuídos a erros humanos. O acidente nuclear na usina de Chernobyl revelou, de forma terrível, quão suscetível é a rede cognitiva humana. O acidente do ônibus espacial Columbia, talvez o mais amplamente estudado na era da alta tecnologia, foi resultado de uma falha ainda maior -a de toda uma instituição.

Até o momento os cientistas levantaram, categorizaram e analisaram os erros. Eles descobriram que qualquer um que deposite confiança demais na tecnologia corre risco de falha. Outra causa de erro, concluíram os cientistas, é a combinação de mau preparo e estresse. Questões organizacionais não resolvidas, como as que condenaram a lendária expedição de Robert Falcon Scott ao Pólo Sul, também podem levar ao fracasso de uma missão.

Em muitos casos há uma linha tênue entre um desastre e a descoberta de um erro. O maior acidente na história da aviação civil serve como exemplo. Em março de 1977, dois jumbos colidiram na pista do aeroporto de Tenerife, uma das Ilhas Canárias. O gravador de voz da cabine documenta precisamente os segundos que antecederam o acidente.

Sensação de presságio
Um Boeing 747 operado pela companhia aérea holandesa KLM aguardava na pista, pronto para decolar, enquanto um jumbo da Pan Am a bloqueava. Uma densa neblina impossibilitava o contato visual.

A torre indicou uma pista específica para o jato da KLM, mas o impaciente capitão interpretou erroneamente as instruções do Controle de Tráfego Aéreo como indicando que ele estava autorizado a decolar. Como descobriram os investigadores do acidente ao escutarem a gravação, Willem Schreuder, o engenheiro de vôo do avião holandês, perguntou ao capitão: "Mas o Pan American já deixou a pista?" Um senso de presságio aparentemente passou por sua consciência. Quando ele viu o outro Boeing aparecer na neblina, era tarde demais para corrigir seu erro fatal e 583 pessoas pagaram o preço.

A voz interna do engenheiro poderia ter salvo suas vidas. Ele provavelmente não estava completamente ciente do erro que estavam prestes a cometer. De qualquer forma, ele foi incapaz de articular seu palpite de forma clara. "Nós deveríamos, de fato, dar mais crédito à intuição", disse o psicólogo Ridderinkhof.

Uma experiência revelou a Ridderinkhof por que é assim. Na experiência, uma luz brilhante aparece periodicamente em um monitor, às vezes do lado esquerdo da tela e às vezes do direito. Ridderinkhof pergunta às pessoas para sempre direcionarem seu olhar para o lado onde a luz não apareceu. Durante a experiência, ele mediu os movimentos da pupila das pessoas para determinar se estavam seguindo as instruções.

Negando os erros
Ridderinkhof sabia que a curiosidade do cérebro humano é grande demais para simplesmente ignorar um sinal como a luz da experiência. De fato, as pessoas persistiam cometendo erros, mas então os corrigiam e melhoravam seu desempenho ao longo do experimento. Como esperado, a típica onda ERN percorria o córtex cerebral.

Mas quando eram perguntados posteriormente, as pessoas negavam ter cometido qualquer erro. Em outras palavras, suas consciências não foram informadas de que o cérebro tinha reconhecido e corrigido os erros. Como Ullsperger, ele também suspeita que encontrou o correlato neuronal da intuição -a voz interna que protege as pessoas de erros.

Em suas experiências, os pesquisadores notam rotineiramente que este sistema de correção é ajustado a níveis diferentes de sensibilidade em pessoas diferentes. Será que pessoas hesitantes são simplesmente temerosas de erros, enquanto as confiantes possuem em sua massa cinzenta um sistema de alerta de erro relativamente insensível?

Os extremos patológicos em ambas as pontas do comportamento de tomada de decisão oferecem possíveis respostas para esta pergunta. Ullsperger também realizou estas experiências de erro com pessoas que se lavam obsessivamente ou que possuem outras formas de desordem obsessiva-compulsiva. Sua conclusão é de que "o sistema de monitoramento delas é tão poderoso que mal conseguem se concentrar em outra coisa exceto monitorarem a si mesmas".

Cocaína ajuda na tomada de decisão?
Um quadro semelhante surge no outro extremo da escala da determinação. Ingmar Franken, neuropsicólogo da Universidade Erasmus, em Roterdã, realizou o teste de Eriksen-Flanker em viciados de cocaína que não se drogavam há pelo menos um mês. "Não se tratava apenas de freqüentemente tomarem a decisão errada", disse Franken, "eles também não notavam seus erros e, mais importante, não mudavam sua estratégia".

Franken acredita que isto poderia explicar por que os viciados em cocaína são tão cegos às conseqüências negativas de seu próprio vício. "Além disso, a atração da cocaína poderia ser o fato de melhorar a capacidade de tomada de decisão", ele disse.

Ridderinkhof, o colega de Amsterdã de Franken, obteve resultados semelhantes em experiências com alcoólatras. "Assim que o álcool nubla o cérebro, a onda de erro desaparece", ele disse.