22/08/2008
Ano 12 - Número 595



ARQUIVO

REPÓRTER

Dissertação de mestrado analisa formação em Di-reito nas obras de Machado de Assis


Prestígio social e carreira política determinavam opções de uma elite para manter opressão social



A formação em Direito no século XIX era a estratégia utilizada pela elite para manter o prestígio social e seguir carreira política, além de exibir retórica acadêmica desvinculada de qualquer projeto de transformação social. Esse retrato da elite está apresentado no estilo literário empregado por Machado de Assis ao expor os personagens principais das obras Memória Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Essa é a conclusão da pesquisa de Luís Henrique de Freitas Calabresi durante seu mestrado na área de Educação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A proposta do estudo foi entender a história da educação a partir da Literatura. Intitulado "A formação em Direito na obra de Machado de Assis", o trabalho será defendido no dia 1º de setembro, às 15 horas, no Centro de Educaçao e Ciências Humanas (CECH) da UFSCar.

"A sofisticação cultural do discurso não era empregada para o desenvolvimento do País, mas como opressão de classe", explica Calabresi. A análise da frase do pesquisador pode ser entendida pelos discursos dos personagens principais dos livros, por sinal, ambos bacharéis em Direito.

Brás Cubas é formado pela Universidade de Coimbra, em Portugal. Com discurso sem escrúpulos, ele é um dos que confessam não ter vocação para Direito, sendo que só fez o curso por ostentação e como forma de obter prestígio social. O personagem possui retórica eloqüente, característica buscada pelas instituições de Direito na formação de seus alunos. Entretanto, o teor é vazio. Quando ele retorna de Lisboa para o Rio de Janeiro, por exemplo, afirma que na universidade havia aprendido "três versos de Virgílio, dois de Horácio e uma dúzia de locuções morais e políticas". A frase identifica a crítica de Machado de Assis à elite letrada da época.

O outro personagem, Dom Casmurro, apelidado por Bentinho, se formou pela Faculdade de Direito de São Paulo, a mesma de onde saíram dez presidentes da República, inúmeros governadores, prefeitos e administradores públicos, além de poetas e romancistas. Entre eles estão Prudente de Morais e Campos Salles, ambos presidentes do País. Sua história é narrada em primeira pessoa. Assim, ele apresenta fatos que se passam da infância até a velhice com o objetivo de explicar o fracasso da sua vida pessoal. O pesquisador Calabresi explica que toda a narrativa do personagem pode ser entendida como um processo criminal. Ele mesmo atua como advogado que se apega à retórica para convencer o leitor de suas idéias.

A proposta da dissertação é mostrar como as obras literárias sofrem grande influência do contexto em que são produzidas. Esse processo não se apresenta somente no conteúdo da obra, mas também na forma literária empregada pelo autor.


 

Informativo da Coordenadoria de Comunicação Social da Universidade Federal de São Carlos