Prestígio social e carreira política determinavam opções de uma elite para
manter opressão social
A formação em Direito no século XIX era a estratégia utilizada pela elite para
manter o prestígio social e seguir carreira política, além de exibir retórica
acadêmica desvinculada de qualquer projeto de transformação social. Esse retrato
da elite está apresentado no estilo literário empregado por Machado de Assis ao
expor os personagens principais das obras Memória Póstumas de Brás Cubas e Dom
Casmurro. Essa é a conclusão da pesquisa de Luís Henrique de Freitas Calabresi
durante seu mestrado na área de Educação na Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar). A proposta do estudo foi entender a história da educação a partir da
Literatura. Intitulado "A formação em Direito na obra de Machado de Assis", o
trabalho será defendido no dia 1º de setembro, às 15 horas, no Centro de
Educaçao e Ciências Humanas (CECH) da UFSCar.
"A sofisticação cultural do discurso não era empregada para o desenvolvimento do
País, mas como opressão de classe", explica Calabresi. A análise da frase do
pesquisador pode ser entendida pelos discursos dos personagens principais dos
livros, por sinal, ambos bacharéis em Direito.
Brás Cubas é formado pela Universidade de Coimbra, em Portugal. Com discurso sem
escrúpulos, ele é um dos que confessam não ter vocação para Direito, sendo que
só fez o curso por ostentação e como forma de obter prestígio social. O
personagem possui retórica eloqüente, característica buscada pelas instituições
de Direito na formação de seus alunos. Entretanto, o teor é vazio. Quando ele
retorna de Lisboa para o Rio de Janeiro, por exemplo, afirma que na universidade
havia aprendido "três versos de Virgílio, dois de Horácio e uma dúzia de
locuções morais e políticas". A frase identifica a crítica de Machado de Assis à
elite letrada da época.
O outro personagem, Dom Casmurro, apelidado por Bentinho, se formou pela
Faculdade de Direito de São Paulo, a mesma de onde saíram dez presidentes da
República, inúmeros governadores, prefeitos e administradores públicos, além de
poetas e romancistas. Entre eles estão Prudente de Morais e Campos Salles, ambos
presidentes do País. Sua história é narrada em primeira pessoa. Assim, ele
apresenta fatos que se passam da infância até a velhice com o objetivo de
explicar o fracasso da sua vida pessoal. O pesquisador Calabresi explica que
toda a narrativa do personagem pode ser entendida como um processo criminal. Ele
mesmo atua como advogado que se apega à retórica para convencer o leitor de suas
idéias.
A proposta da dissertação é mostrar como as obras literárias sofrem grande
influência do contexto em que são produzidas. Esse processo não se apresenta
somente no conteúdo da obra, mas também na forma literária empregada pelo autor.
Informativo da Coordenadoria de Comunicação Social da Universidade Federal
de São Carlos