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Ambiente de medo provoca demissões
José Augusto Rodrigues Jr.
Princípios de boa gestão parecem evaporar da cabeça de pequenos e grandes
empresários em momentos de crise. Literalmente, destrói-se o que se plantou ao
longo de anos. O funcionário, que ao lado dos clientes forma o principal
patrimônio da empresa, é mergulhado em um ambiente de insegurança ou é
“descartado” ao menor sinal de redução das margens de lucro.
Recente estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao
Ministério do Planejamento, conclui que, diante da crise financeira e econômica
internacional, muitas empresas têm demitido funcionários por precaução, e não
por estar com problemas de caixa. Em geral, falta transparência no processo de
enfrentamento das dificuldades. A busca de soluções inteligentes e ágeis, com
ampla participação dos empregados nas decisões, é substituída por um ambiente de
medo, com reflexos inevitáveis no nível de produtividade.
E é assim que se instala no ambiente corporativo e na economia como um todo o
que os economistas denominam de “profecia autorrealizável”. Diante de uma queda
nas vendas, as empresas demitem sem o mínimo critério e cortam investimentos. E
os trabalhadores, com medo de perder o emprego, reduzem gastos. Resultado:
poucos compram, poucos vendem e a roda deixa de girar.
Os pesquisadores do Ipea alertam, no entanto, que nem empresários nem
trabalhadores podem ser responsabilizados pela crise, que não começou no Brasil.
É normal que cada lado siga seu instinto de sobrevivência – os empresários
protegendo seus negócios e os trabalhadores esticando sua capacidade de
consumir. Mas o estudo conclui que “decisões individuais racionais nem sempre
são aquelas que produzem os melhores resultados coletivo-sociais."
O que choca na crise atual é a “facilidade” com que muitas corporações colocam
centenas, ou milhares, de funcionários na rua, mesmo recebendo benesses do
governo e diariamente pressionando por incentivos e redução de impostos. Mais
graves são os episódios de visível má-fé, nos quais o empresário se aproveita do
ambiente de crise para demitir sem prévias negociações com sindicatos ou sem
antes lançar planos de demissões voluntárias.
A maioria das empresas parece, neste momento, não estar consciente do custo real
das demissões que, além dos gastos imediatos com os desligamentos, corroem a
imagem e dilapidam o patrimônio humano. Perdem-se os investimentos feitos em
treinamento e quebra-se o elo de identificação do trabalhador com os ideais de
seu empregador. Entre os que ficam, é inevitável que circule um ar de
insatisfação e insegurança, com reflexos diretos na produção.
As empresas, especialmente as listadas em bolsas de valores, não podem ignorar
que os arranhões na imagem institucional terão reflexo nas relações com os
investidores. É difícil apostar na compra de ações de uma corporação que faz
demissões em massa. Por tabela, a cotação das ações recua e o valor de mercado
da marca despenca.
Em muitas situações, a injeção de uma boa dose de otimismo, onde o corpo de
funcionários se envolva na busca de soluções, em um ambiente de total
transparência, pode ser muito mais lucrativo do que demissões. Se essas forem
inevitáveis, diante de um prolongado recuo nas vendas, que as decisões sejam
justas e serenas, com o menor prejuízo para ambos os lados. Não adianta
preservar o anel se o dedo for perdido para sempre.
Segurar demissões evita custos e processos trabalhistas. E mantém-se a economia
em crescimento. A perda do emprego sempre destroi sonhos pessoais e familiares.
José Augusto Rodrigues Jr. é sócio do escritório Rodrigues Jr. Advogados -
jose.augusto@rodriguesjr.com.br |