08/06/2003
Número - 318

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Opinião Acadêmica



Opinião Acadêmica

DEPRESSÃO: ESTRUTURA PSÍQUICA OU EFEITO COMPORTAMENTAL?

Rita Franci Mendonça


       O rótulo de depressivo, atribuído anteriormente aos pacientes que tenho recebido para tratamento psicanalítico ao longo dos anos, tem me preocupado sobremaneira.

       Qual será a razão de ser de um "diagnóstico" tão genérico? Será que tal rótulo remete a uma "verdade psíquica"?

       A Psicanálise tem muito a dizer sobre este assunto, principalmente depois de ter recebido as valiosas contribuições do Dr. Jacques Lacan, renomado psicanalista francês que resgatou a obra freudiana e a enriqueceu do ponto de vista teórico-clínico.

       Estas contribuições possibilitaram um grande avanço no tratamento, não só das neuroses, como da psicose paranóica e da melancolia, por ele denominada de ato masoquista propriamente dito. Suas observações clínicas demonstraram que os estados depressivos acompanham a maior partes das estruturas psíquicas e se manifestam não só nas neuroses, em suas várias modalizações, como também nas psicoses. Contudo, estes efeitos de melancolização são específicos e diferenciados, em sua natureza e expressão, de acordo com a estruturação psíquica de cada sujeito.

       No caso das psicoses, evidencia-se a impossibilidade de constituição de um sujeito autônomo e descolado de sua mãe. Portanto, a função fálica paterna não pode se fazer presente para operar as identificações necessárias a este processo de autonomia. O efeito disso será mortal em relação ao psiquismo do sujeito e se manifestará através de uma melancolia auto-hostil ou de uma agressividade egóica hetero-hostil.

       Além das psicoses, Lacan, em seu seminário "A Relação de Objeto", dá estatuto de conceito à melancolia como uma estrutura específica. Esta é determinada por uma vivência de perda objetal com valor materno. O melancólico identifica-se ao objeto tido como morto e abre mão da vida, o que, necessariamente, não implica em suicídio.

       Também se pode falar de um efeito melancólico na estrutura maníaca. Nestes pacientes, há um gozo com a degradação e se melancolizarão ao perceber o rechaço social que provocam.

       No que se refere às neuroses, as causas de seu efeito de melancolização são bastante diferentes. Nelas pode haver estados depressivos por diversas razões e também por perdas objetais durante a vida. Porém, os neuróticos têm, em geral, melhores condições de fazer o luto destas perdas, ou seja, de elabora-las e podem, a partir daí, substituir seus objetos amorosos.

       A neurose histérica, por exemplo, é acompanhada de efeitos de melancolização quando o sujeito não se supõe mais desejado. A decepção, daí decorrente, lhe acarreta angústia e depressão.

       Quando Lacan conceitua a neurose obsessiva, principalmente em seu seminário "O Desejo e sua Interpretação", descreve, como sendo a causa do efeito de melancolização nesta neurose, o fato de nela ser atendido o pedido de sua mãe de denegrir a imago paterna. E, como sua identificação passa por esta imago, o sujeito vai desvalorizar-se como desvalorizou o pai, e, com isto, seu próprio desejo. Por esta razão, Lacan compara esta estrutura ao personagem Hamlet, de Shakespeare. Este, por amor à mãe, não pode atender ao pedido do fantasma do pai de vingar seu assassinato e, assim, passa a dar valor mortal ao seu próprio desejo abrindo mão de sua amada, Ofélia. Por conseguinte, se o neurótico obsessivo dá valor mortal ao seu desejo, e, por isso, dele abre mão, se restringirá ao lugar depressivo de espectador da própria vida, como se fosse a de um outro, só que "morto" em relação às suas mais íntimas necessidades.

       Percebe-se, então, que, em todas as estruturas psíquicas, há efeitos de melancolização e, embora estes efeitos, em sua aparência comportamental, tenham manifestações até semelhantes, suas causas são absolutamente diversas. Daí a necessidade de se conhecer as estruturas clínicas, não só para estabelecer suas verdadeiras causa, mas também, seu diagnóstico diferencial. Isto porque, se, como nos ensina o Dr. Lacan, há um tratamento específico para cada estrutura clínica, como vamos rotular a maioria das pessoas como "depressivas"? Será que isto ajuda a um paciente que procura tratamento? Será que isto não fecha a possibilidade dele interrogar-se sobre os enigmas que o trouxeram ao tratamento e que lhe causam angústia? Não haverá o risco de que, ao ser chamado de "depressivo", ele passe a se conformar em ser portador de uma patologia crônica, de caráter orgânico, com o destino de submeter-se somente a um tratamento organicista? Os pacientes, submetidos a esse tipo de tratamento, percebem que sua angústia retorna e que lhes falta ser efetivamente escutados acerca de seus enigmas, fonte de seus sofrimentos. Ater-se a um efeito comportamental de depressão como verdade em si mesma, não possibilita desvendar as razões inconscientes desta depressão. Serão estas razões inconscientes que determinarão a repetição dos problemas, reiteradamente, ao longo da vida. E quem desconhece a Psicanálise, a julga como sendo um tratamento muito demorado. Porém, se a Psicanálise tem podido desvendar as causas do sofrimento em cada estrutura, poderá abordar diretamente a sua origem, agindo com maior eficácia e brevidade.

       Por todas estas razões, faz-se necessário identificar a fonte do sofrimento, tanto na melancolia propriamente dita, quanto nos diversos efeitos da melancolização, justamente para que o paciente possa independizar-se, abrir mão de seu gozo masoquista.


Dra. RITA FRANCI MENDONÇA é Presidente e diretora clínica do Centro de Estudos Lacaneanos - Instituição Psicanalítica. Porto Alegre/RS.
Site do CEL: www.celacan.com.br
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