11/06/2005
Ano 8 - Número 424


 


- Compre filtro solar


 
Rosa Pena

 

Phantom of the net

 

Chega mais um escrito dele e logo após diversos comentários com elogios a si próprio, e muitas críticas cítricas, deboche e pouco caso nas demais postagens dos outros autores. Ele é múltiplo, tanto quanto os provedores gratuitos permitem a proliferação. Destila veneno na rede na forma feminina ou versão masculina, buscando sempre desestabilizar a comunidade virtual. Tudo depende de seu tesão fantasmagórico do dia.

No meio de um desses seus porres do que estiver mais à mão: gin, whisky, cachaça, vinho ou simplesmente dor física ou abatimento emocional, seja o que for, ele escreve. Até escreve bem.

Seu plantão na net é direto, sem descanso, pois afinal, fantasmas não possuem vida real, ora bolas!

Ele adora escrever pornografia depois que enche a cara de cachaça, mas se tomar vinho ele se incorpora da Bárbara Heliodora e vira um severo crítico.

Não é sobre heterônimos que me refiro, pratica comum entre escritores. Não é sobre nickname, prática comum em chats. É sobre falsa identidade de alguns usuários da rede, intitulando-se escritor e crítico.

Foi muito comum no passado, autores escreverem as aventuras e andanças de personagens do sexo oposto (Georges Sand, Inspector Poirot e outros tantos) com a adoção de pseudônimo, tudo feito para ocultar e proteger as verdadeiras identidades criadoras. Já na atualidade essas práticas foram caindo em desuso, acredito como natural conseqüência da progressiva mudança dos costumes e dos graus de permissividade social, e até mesmo da gradativa dilatação dos limites da tolerância social, intelectual, psicológica, emocional, física. Segredo já não precisa ficar entre quatro paredes nem na vida real, que dirá no papel. Na prática muitos casais-de-papel-passado, hoje habitam endereços distintos, até por decorrência, casais que mantêm círculos diferentes de amigos, trabalhos em locais distantes. Para muitos ficou natural a indução de relações sexuais também independentes, inclusive variando os gêneros dessas relações, desde os pares românticos até às próprias orgias descompromissadas (surubas rasgadas), sem que essas práticas necessariamente estremeçam as relações normais desses matrimônios formais. Se os pares formados, com diploma no cartório, passaram a usufruir desta liberdade, virou quase uma obrigação para os solteiros e descasados, entrarem nessa. Passaporte para estar antenado com a modernidade. Assim sendo, confesso estranhar esse zelo 'extemporâneo' que o fantasma virtual tem em sua criação literária dita "livre" de qualquer coisa. Por que ele não exerce diariamente essa muito bendita liberdade, descrevendo sem falso pejo, pensamentos, emoções e sofreguidões eróticas, até lascivas, em estilo próprio, assinados com seu próprio nome ou heterônimos literários num provedor que não mente? Deixe para os leitores a elaboração de suas imaginações, cada qual individualmente e nos modelos restringidos ou amplamente libertos de seus próprios códigos de moral, de conduta, etc. Não quero pregar a abolição dos zelos! amais! Apenas expresso uma certa surpresa ante a explicitação das restrições morais impostas, atrás de diversos nickname do fantasma. A convenção de conduta comportamental do espectro virtual está ligada a que afinal? Não há, claro, possibilidade de reger os pensamentos e emoções dos leitores quando muito consegue insinuar os climas e situações apropriadas às suas narrativas. Não vai fazer a cabeça de ninguém, por mais débil mental que ele considere os usuários da rede, não vai ser julgado e condenado, e se o leitor se der a construir conclusões próprias a respeito do comportamento moral ou das atividades sexuais do criador, é um babaca, perfeitamente descartável.

Concluo portanto, que o fantasma virtual se construiu e se dividiu em vários fantasminhas (tem horas que ele é até camarada), não para expandir suas emoções ou seus conhecimentos literários. Ele se criou apenas para desacreditar o espaço virtual, para invalidar a seriedade dos trabalhos feitos por usuários da rede que possuem IFP e vida real, para destruir aqueles que talvez não possuam os seus profundos conhecimentos lingüísticos e sua farta vontade lírica de ser o demônio pornográfico, mas possuem o que ele não tem. Vergonha na cara. Perambula pela net tentando ouvir o eco de seus gritos. Como aqui é sem som, restou-me a constatação: - Coitado.


(11 de junho/2005)
CooJornal no 424


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net