02/07/2005
Ano 8 - Número 427


 



 
Rosa Pena

 

coisinha à toa

 

Conheci Ari quando ele virou meu vizinho. Nunca conversamos, mas o fato de morarmos no mesmo prédio fez dele meu conhecido, mas não amigo.

Um dia, estou vendo o Jornal Nacional e vejo ao vivo e em cores um assalto ao Banco do Brasil.

O assaltante, pego em flagrante por uma câmera indiscreta, porta em uma das mãos um revólver e na outra um saco de dinheiro. Focalizado o rosto do meliante, reconheço Ari.

Surpresa e perplexa, olho com atenção. A princípio, nem quero acreditar. Penso no filme “O perigo mora ao lado”.

Sem ter como contestar a fidelidade das imagens, considero que não há mais o que pensar, nem esclarecer. Cabe à justiça julgar. E como a justiça virou Cantina há bastante tempo, já sei que sairá uma bela Calabresa.

E sai sim. Sem gosto, sem sal, e nós teremos que engolir a insossa massa.

Ari volta a morar em seu apê com a mesma cara de sempre, e volta à tranqüilidade de seus dias. Afinal, foi só um “roubinho”, pequeno roubo. Coisinha à-toa.

Seria só um detalhe a mais no cotidiano de nossas vidas — já tão acostumadas às falcatruas, onde a desonestidade banalizou-se —, se meu vizinho não insistisse em afirmar que o revólver e o dinheiro que estavam em suas mãos apareceram por acaso, não houve intenção de roubo. Foi uma infeliz coincidência de hora local, porte et cetera e tal.

Percebo, neste instante, que atualmente me irrita por demais as negativas das claras evidências, as negativas do óbvio. Sinto que, além de sermos lesados em nossos tesouros, recebemos um atestado de babaca. Guarda o teu, que eu guardo o meu.

Sarney vai ser o novo presidente com o Maluf de vice? Quem sabe não vai ser
Roberto Jefferson com o Dirceu?



(02 de julho/2005)
CooJornal no 427


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net