
16/07/2005
Ano 8 - Número 429

- Coisinha à toa
- Compre filtro solar
- Pensando morreu um burro?
- Phantom of the net
- Quem?
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Rosa Pena
Eu frevo de raiva!
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O nome frevo nasceu da metátese, mudança de lugar ou condição de um
fonema. Quanta gente não fala largato, estrupo, vrido, etc. Inversão
também chamada de hipértese.
Frevo é fervo, o ato de ferver, do eu fervo, não a água, mas ferver
o corpo. Erro considerado grave na escrita, não o fato de balançar o
esqueleto, e sim a metátese. Eu nunca fui de atirar preda na Geny,
humilhar meu semelhante pelo erro, sei que não é proposital, não é
falta de saber, é na maioria das vezes uma característica regional,
quase institucionalizada no nordeste brasileiro. Vira vício de
linguagem, soa estranho aqui no RJ, da mesma forma que os excessos
dos nossos “is”, soa mal por lá. Carioca não diz: - Eu disse. Diz: -
Eu dissi.
- Ta comendo vrido peste? Não, to comendo gelo pai! (Luiz Gonzaga).
Pois é, digo que não gosto de carnaval, mas adoro toda e qualquer
manifestação popular de alegria. Acho que não curto mais é escola de
samba do tal grupo especial. É muito silicone para os meus olhos, é
muita madrinha pra pouca bateria. Estou com os blocos e não abro.
Não só os cariocas, os desse Brasil afora.
Os Papangus lá de Bezerra em PE, completou cem anos. Desde de 1905 a
tradição é o marido fujão se mascarar, e cair na folia até o
amanhecer. A brincadeira acaba na quarta-feira, quando é agraciado
com um prato de angu em alguma casa, por vezes em sua própria casa,
e o mais instigante é a esposa ofertar a papa, sem saber se é seu
esposo ou não, o comedor. Quem comeu o angu? Ele ou tu?
Aqui no Rio, o meu bloco favorito é “Simpatia é quase amor”, que sai
de Ipanema há vinte e um anos. O nome do cordão é originário de um
poema do Casimiro de Abreu, "O que é simpatia?". Eu concordo com o
grande poeta plenamente. A gente simpatiza tanto com alguém, que a
sensação é de amor mesmo. Além do nome lindo, as características do
bloco são as minhas. Liberdade nas abordagens temáticas, na
freqüência, mas sem nunca esquecer o respeito coletivo.
Seu Manuel da padaria pula com a garota da capa do playboy, o garoto
das bolas no sinal samba com o juiz criminal. No quase amor não há
preocupação com bundas e peitos. Se aparecer foi conseqüência. Sem
lança-perfume, sem cheiro, a gente tem êxtase. Os blocos de carnaval
são no final de tudo a grande escola do carnaval. A DA PAZ! Um dos
raros momentos onde todos somos absolutamente iguais. Esse é o maior
objetivo da democracia ou não é mais?
Ele freve no nordeste e nós fervemos aqui no sul. Em fevereiro de
2005 tentamos repintar nossa bandeira de azul e amarelo. Andava
vermelha demais, mas a esperança ainda permanecia verde, apesar da
Rosinha que murchou, do Garotinho que adolesceu, do mar não estar
pra peixe, e sim pra moluscos. Ainda assim, sempre que começa um ano
novo, buscamos fé no que virá.
O cinza chegou no dia certo do calendário para o povo. O garoto
voltou pro sinal, a garota pra capa, seu Manuel pra padaria. E o
governo? Pra roubalheira.
A esperança? Na prateleira guardada por mais num sei quanto. A gente
ainda não aprendeu que não basta apenas o povo I LOVE Brasil
lutar, pois os genuínos Josés Genoinos, cismaram de tirar o sorriso
do brasileiro. Eu frevo de raiva da minha cara de babaca. Carnaval o
ano inteiro? Lulafolia? O meu acabou na quarta-feira. Já era essa de
contar com a alienação do brasileiro, que basta dizer que a taça do
mundo é nossa, e promover um Lenny Kravitz na praia. Circo sem pão?
Come pedra peste?
O Lalu não é mais torneiro? Terno Giorgio Armani fez a
cabeça? Papou muito angu? Está sofrendo de hipértese? O Que É Isso,
Companheiro?
Somos patriotas, mas não somos mais idiotas.
(16 de julho/2005)
CooJornal no 429
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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