
23/07/2005
Ano 8 - Número 434

- Coisinha à toa
- Compre filtro solar
- Eu frevo de raiva!
- Pensando morreu um burro?
- Phantom of the net
- Quem?
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Rosa Pena
Agora faz!!!
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— Agora faz outra!
Ouço a voz da minha filha, falando com meu sobrinho-neto de dois
aninhos e levanto os olhos da revista. Constato que Felipe havia
acabado de matar uma joaninha.
Sorrio para Carol e mando um beijo para o céu, pois afinal papai
está lá, assistindo a tudo de camarote.
Volta à minha memória a minha infância. Não sei exatamente com que
idade papai falou pela primeira vez: “Agora faz outro(a)!” Ah, mas
lembro com exatidão quando me explicou o porquê da frase.
Estava com sete anos e brincava na varanda de casa. Uma carreira de
formigas formou-se em volta de um papel de bala que deixei ali.
Peguei minha sandália e matei as formigas com vontade. Papai que
assistia disse:
— Minha filha, creio que ainda não entendeu quando digo “agora faz
outra”. Destruir a obra alheia é fácil, construir outra igual é
impossível. Você pode conseguir algo similar ao original, mas nunca
será idêntica, ainda mais obras da natureza, que apenas Ele
conseguiu realizar. Quando você pisa numa formiga, você destrói
parte da obra Dele, e quando te mando fazer outra é para mostrar tua
impotência diante Dele. Isto, minha Rosa, não se aplica apenas a
obras divinas. Busque ver a parte bela de cada coisa e repare que
não foi feita à toa. E mais, olhe com atenção, pois tudo muda, passa
rápido e não tem volta.
A partir desta explicação, virei naturalmente uma defensora do meio
ambiente. No decorrer da vida, incorporei este pensamento à minha
filosofia de vida.
Não sei se sou extremamente condescendente com a obra alheia, mas
quando leio um poema, olho um quadro, ouço uma música, vejo um
filme, busco sentir o momento de criação do autor. Procuro um pouco
de sua alma, na certeza de que não o fez em vão.
Sempre que vejo alguém desfazer sumariamente de uma obra, penso na
pisada da formiga. A pergunta martela em meus ouvidos... Será que
este crítico feroz consegue fazer igual?
Certamente que não. Pode fazer até melhor, dentro da concepção dele,
mas igual nunca.
Apenas matou o momento de brilho do criador, momento que não volta.
Minha filha tenta explicar ao Felipe. Ele ainda não entende, ainda
pisará em muitas formigas, mas ela já plantou a semente.
Olho com orgulho para ela e constato que a minha germinou. Está
linda, coberta de botões.
Tenho certeza de que florescerá.
Levanto e vou buscar o cd do Lulu Santos. Sinto necessidade de ouvir
com papai “Como uma onda no mar”.
(23 de julho/2005)
CooJornal no 434
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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