
27/08/2005
Ano 9 - Número 439

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Rosa Pena
Roda...
Gigante!
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Passo diariamente pela barraquinha de “Sucos do Zé”, mas já não paro como fazia
quando criança. Arrumo tantas desculpas para sequer dar uma olhadinha e penso:
“Sou ocupadíssima, tenho mil compromissos, casa, marido, filha e trabalho fora.”
Quando acabam as desculpas exclamo:
— Também tenho que ter um tempo para descansar, ora!
Não sei por que senti necessidade, hoje, de parar na barraquinha. Ela não fica a
mais de cem metros donde moro, mas parece, na pressa do dia a dia, quilômetros.
Acho até que sei por que parei. Pedaços do Rio sem violência viraram focos de
atração.
Verifico que ele mantém tudo como era há muitos anos, e apesar dos traços que o
tempo deixou em seu rosto, mantém seu jeito jovem, a serenidade, a alegria.
Em tom cordial me saúda:
— O mesmo de sempre?
Meio confusa, pois não lembro mais o que é o de sempre, respondo:
— Pode ser!
Quando ele começa a preparar, a memória vem na hora. Vitamina de morango com
leite e muita groselha. Era, sem dúvida, a que eu mais gostava. Hoje, calculo as
calorias. Perto de 1500kc, equivalente a uma lasanha!
Volta o sabor da infância em minha boca! Bota bala e pirulito nisso!
Seu Zé se encosta no balcão e começa com sua prosa, contando tudo que aconteceu
durante o tempo em que não havíamos conversado. Conta da família (Zé Júnior
virou engenheiro, quem diria!), fala da política, comenta sobre a seleção, mais
dos acertos que dos erros (Brasil!!!!!), sempre com aquele jeito povo, buscando
o lado bom de tudo nos seus comentários. Será que ele tem complexo de Poliana,
ou eu ando amarga por não usar mais açúcar?
Estou zero cal demais!!!!!!
Enquanto ouço, reparo na caixa de frutas do lado de fora, onde crianças, da rua
e de rua, passam direto roubando frutas, e tenho dúvidas se o “Zé” percebe ou
não. Lógico que não, penso eu. Vai dar mole assim? Sinto vergonha ao lembrar-me
de que certa vez, no meu tempo de menina, também peguei uma tangerina, mesmo sem
precisar. Por que peguei? Acho que considerava um desafio à vida. Fui babaca
algumas e muitas vezes, reconheço.
Essa mania de deixar pelo menos uma caixa de frutas do lado de fora da
barraquinha é antiga. Ainda bem que ele realmente nunca percebeu nossos delitos,
o meu principalmente, senão seria um mico!
Depois de mais ou menos uma hora de papo, me conta:
— Então menina (menina é tudo de bom), meus filhos, hoje, todos formados,
ganhando bem, graças a Deus! — tira o boné com gesto de respeito ao supremo. —
Querem que eu venda esta barraca e pare de trabalhar. Já pensei nisso, pois não
dependo mais dela, mas ficar em casa parado, vendo TV e implicando com minha
santa mulher? Eu não!
Faz uma pausa e emenda:
— E, afinal, quem daria algumas frutas para essa molecada de rua se a barraca
fechasse?
Ruborizada dou um beijo na bochecha dele.
Eu envelheço junto à máquina de calcular, no ar refrigerado bem gelado, com
gotas de adoçante ao meu lado. Roda viva.
Ele rejuvenesce sem fazer muita conta, ao ar livre, com bastante açúcar, envolto
de crianças.
Roda... Gigante!
(27 de agosto/2005)
CooJornal no 439
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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