
22/10/2005
Ano 9 - Número 447

ARQUIVO
ROSA PENA
|
Rosa Pena
Filho do Peto
|
 |
Não estava em busca de um caso. A primeira vez que rolou um oi entre eles ela
foi cerimoniosa, diferente do que é normalmente, baixou-lhe uma imensa timidez,
talvez pela sensação de risco que a gente tem na entrada da montanha russa, a
excitação fica encoberta pelo medão que dá. Havia sido apresentada a ele por um
amigo em comum, que o referendou como alguém sensível. Ficou encantada
imediatamente. Procurou-o na semana seguinte para pedir uma ajuda, mais ou menos
necessária, mas que se fez muitíssimo pelo desejo de conhecê-lo melhor. Ele foi
destemido e disse que só faria o bendito, hoje é chamado de maldito favor, em
troca de um sorriso dela. Ele viu seus dentes todos, de ponta a ponta na hora.
Estava aberto o sinal. Imaginou-o de carne e osso, igualzinho a ela. Sensíveis
não são feitos de jacarandá ou pinho. Armário tem alma? Ele, com sua cara
envernizada, começou a entrar na melhor parte do cotidiano de uma mulher (uma?
duas, três, mais de dez delas), o emocional, que com a convivência integral vira
máquina de lavar sonhos, impedindo-os de fluir; centrífuga, seca as ilusões.
Devagar, paquerador casual, pois sabia que assim seria bem mais envolvente;
suspenses são infalíveis! Aos poucos foi pedindo um pouquinho mais, pequenas
lustradas na face, a coitada tinha jeito de Poliflor.
Brilho perfeito com muito amor!
-Um beijo, vai, dá! Deu um beijinho, dois, mil. Ele os multiplicava pela dúzia
das carentes de devaneios. Os corações vazios de fantasias agradeciam; os olhos
de Caatinga precisavam urgentemente regar as rosas que teimam em existir nos que
ainda acreditam em ternura. Elas começaram a rebrotar com pressa. Urgência de
florir! Rosas parecem de cultivo complicado, mas basta ter um coração mediano
para fazê-las viçosas. Foi um choque quando descobriu que ele era o filho do
Gepeto. Madeira não sabe amar, no máximo vira caixão. E sequer era uma de lei,
tava mais pra aglomerado cheio de cupim da hipocrisia.Bela porcaria que desmonta
num bater de porta! Não conseguiu mudar a história, nem ela, nem as mil que
caíram no ardil do pré-fabricado. Sobrou-lhe um grilo, tão falante quanto o da
história infantil, aquele que era amigo do filho do Peto, que insiste em
chamá-la de imbecil todas as noites. Onde já se viu morrer de paixão por um
boneco narigudo? Na tentativa de superar o verdinho tagarela, dedica-se
atualmente a uma ONG protetora das baleias, com a intenção de não permitir que
se façam fogueiras no estômago das coitadas. Engoliu, ta engolido! Ela engoliu
sapos e não teve expulsão. Justiça para todos!
Abaixo a balela! Viva a baleia.
(22 de outubro/2005)
CooJornal no 447
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
|
|