
29/10/2005
Ano 9 - Número 448

ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Anistiado
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Ele tinha quinze anos em 1998, quando foi meu aluno.
Lucas era lindo, rebelde, irrequieto, atrevido.
Tentei inicialmente ganhar a simpatia e a confiança dele, para conseguir dar
aula para a turma e por ele próprio. Queria ensiná-lo. Não tive muito sucesso no
decorrer do ano, por vezes me pergunto se me esforcei de fato. Ele tinha horror
a qualquer tipo de obediência e eu havia perdido um bocado da minha antiga
paciência.
Era daqueles adolescentes que adoram zoar dentro da sala, amam infernizar a vida
dos adultos, veneram mostrar aos mais velhos que o tempo deles “já era”. Nada
parecia interessá-lo, exceto suas infernais bolinhas de papel, jogadas nos
colegas quando eu estava de costas. Passei parte do ano tentando achar seus
focos de interesse. Quase nada encontrei. Desisti.
Quando chegamos ao final do ano, ele era obviamente, um dos alunos que ficaria
para a prova final. Avisei a turma que minha prova seria uma redação sobre os
direitos humanos, visto que no dia 13 de dezembro daquele ano seria o niver
de trinta anos do famigerado AI-5. Expliquei o que era o tal Ato Institucional
n.º 5 — instrumento utilizado pelos militares para aumentar os poderes do
presidente e permitir a repressão e a perseguição das oposições, criado em 13 de
dezembro de 1968, no auge da ditadura militar de nosso país.
Conversamos sobre as barbáries cometidas pelos militares durante a revolução de
1964 e nos anos seguintes a ela. Jovens estudantes presos, surrados, idealistas
mortos, a população impedida de expor opiniões, jornais fechados, torturas
infindas, montes e montes de desaparecidos e de exilados.
Uma verdadeira afronta aos direitos humanos, com a desculpa de que era para o
bem do povo e felicidade geral da nação.
Foi a primeira vez que vi um interesse enorme em Lucas. Virou outra pessoa.
Olhos e ouvidos aguçados.
Subitamente começou a perguntar sem parar, se os militares ameaçavam a população
do nada, se humilhavam as pessoas só por prazer, se obrigavam os presos a
tomarem banho frio por economia, a comerem sopa de entulho, se proibiam o uso da
TV, se impediam que se ouvisse música alta, se puniam namoros, se aconteciam
surras sem motivos, humilhações na frente dos outros, enfim todas as espécies de
afrontas possíveis.
Contei que era mais ou menos assim. Quem se mostrasse desobediente ao regime
pagava caro. Autoritarismo total.
Perguntou-me, então, quando e como acabou este inferno. Respondi que acabou
parcialmente com a extinção da ditadura militar. Mudança de poder. Que ainda
existia, mas bem mais disfarçado. As injustiças e sede de poder nunca acabam.
Apenas trocam de lados.
Sufocado gritou:
— Quem passou por isso e viveu é o tal anistiado?
Respondi que sim.
— Então, quando eu tiver dinheiro e sair de casa, serei um anistiado. Olha o
roxo em minhas costas, e pergunte aos meus colegas quantas vezes viram os berros
humilhantes que levei na porta do colégio por causa de um refrigerante. Sou
filho de um ditador. Mas discordo de “poder” trocar de lado. Quando tiver um
filho, ficarei sempre do mesmo lado, ao lado dele.
Não consegui olhar nos olhos de Lucas. Senti vergonha de fazer parte desta
humanidade. Senti raiva de mim, por não ter sacado a vida daquele menino.
Apenas lembrei-me de Andrés Dominguez...
“Os direitos humanos deveriam começar em casa.”
Jurei jogar fora o bife de fígado que minha filha odiava comer.
(29 de outubro/2005)
CooJornal no 448
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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