12/11/2005
Ano 9 - Número 450


 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena

 

Bike


 

Ganhei num natal quando já não acreditava mais em Papai Noel. Ela chegou graças ao vestido de noiva que mamãe bordou para uma ricaça. Papai achava que bastava uma atendendo as três meninas. Eu por ser a caçula sempre ficava na espera, aceitava até a chantagem de minha irmã mais velha, lavar a louça na vez que seria dela, para ter prioridade. Quando ela chegou? Chorei muito, pois achei que tinha virado adulta, até já havia visto uma pontinha de seio despontando. Agora tinha meu próprio transporte.

Independente - Mulher pronta para vida! Passei a ser à que comprava o pão para o jantar, sem favor algum. Arrumei uma cestinha e "tava" que tava me achando.

Descia e subia o Alto da Boa Vista num pé só, voando e sonhando. Ah! Quando eu trabalhasse ia ter uma motocicleta. Uma Honda 750! Também defini minha profissão. Cantora de churrascaria, que nem a Arlene do Rincão. Ficaria famosa e com o dinheiro tirava o seu Armando e os filhos da rua. Casaria com o professor Derly de história e íamos até a USA conhecer o Luther King, com quem eu aprenderia como se faz a paz universal. Nada mais de tristeza, porque meu pai não morreria sem ver o sol outra vez. O resto do dinheiro de minha fortuna eu daria para descobrirem a causa da cegueira progressiva dele e ele ficaria vivaz de novo. Mamãe seria eterna, disso eu tinha absoluta certeza. Teria oito filhos e uma mesa enorme com uma toalha vermelha. Todo mundo em volta. Eu ia até beber um bocadinho de vinho e ficar ruborizada com a minha extravagância.

Queria ser igualzinha a mamãe. Daria rodelas de pão com feijão, ainda fervendo na panela, pros meus filhotes. Choraria com minha filhinha a tristeza do patinho ser feio e depois a gente sorriria de felicidade com o Cisne que surgiria majestoso.

Derly faria como papai. Leria muito, explicaria com paciência e compraria guaraná aos domingos, quando eu fizesse hot dog e pipoca. Fim de semana sempre com ar de festa.

Friburgo só nas férias. Será que da fortuna do meu cachê artístico sobraria dinheiro pra aquele hotel lindão que tem lareira e inclui refeição? Quanto tempo já faz?

Ontem minha filha ganhou seu primeiro carro. Apenas uma filha a gente pode até dar carrinho usado, do nosso dinheiro tão suado. Ainda bem que não quis moto. Help!!  Uma loucura com essa violência no trânsito. Falei igual ao papai!

Luther morreu sem me dar aulas. Aliás, acho que ninguém teve!

Derly já é avô e nunca me deu um hello. Seu Armando sumiu na vida. O filho mais velho é do Comando Vermelho. As crianças já nascem sabendo que os patinhos viram cisnes se tiverem grana e poder. E como é difícil dizer para não deixarem os cisnes ficarem narcisistas, pois o lago não é exclusividade deles. Ou é por mais que eu não queira?

Papai se foi antes de descobrirem a cura. Não há verba para saúde. Aliás... Há saúde?

Minha voz nunca deu nem pra karaokê! Mamãe não era eterna. Não, não era!

Lourdes é quem faz o feijão e bota no freezer, de lá vai direto pro microondas. A gente só usa jogo americano, toalha dá muito trabalho. Fim de semana é para dormir e assistir Faustão.

A velha bike foi roubada sem motivo! Meus sonhos foram por mil deles!



(12 de novembro/2005)
CooJornal no 450


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net