
26/11/2005
Ano 9 - Número 452
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
APENAS MÃE
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Não sou sua coleguinha, sou sua mãe, gritei alto e em bom-tom.
Essa é a grande dificuldade que tenho encontrado na minha relação
com minha filha de vinte e dois anos. Ela cisma de esquecer nossas
décadas de diferença, ela ignora o tanto que já vivi, ela insiste
que só o meu corpo envelheceu, e que sou antenadíssima com a
juventude, ela exige isenção da emoção que nos liga em meus
conselhos. Eu a amo como mãe, eu sou sua melhor amiga, mas não
coleguinha de seus devaneios do além.
Já tive o tempo dos meus, foram tantos e tantos, já quebrei muito a
cara, já quebrei até a coroa, e minha mãe não era muito moderna.
Minha mãe? Era mãe com avental sujo de ovo, da linha de mães
Made in Lar.
O noivo da minha menina largou-a. Ela chorou todas. No meu ombro, no
ombro das coleguinhas, do vizinho, da empregada, do seu Manuel da
papelaria, e todo aquele que cruzasse em sua vida naquele momento.
Quando a gente está na fossa o mundo inteiro tem que ouvir. Dei meu
apoio incondicional, mas proferi meu pensamento que contrariou as
idéias das colegas de geração.
Diagnóstico de mãe:
- Ele é um merda que não merece um tesouro como você.
Meu pronunciamento de amiga vivida:
- Melhor agora do que depois, vocês possuem excessos de diferenças.
Contrariei a análise da turminha de vinte aninhos, que se
solidarizou geral com ela na perda lastimável do saradão bombado,
rei do hip- hop, valentão com pitbull, que fala menos no feminino, "menAs"
é foda, fala sério!
Passei a senti-la afastada de mim, olhando-me como se eu fosse um
Tiranossauro Rex, uma sogra víbora que adora falar horrores do
genro. Onde errei, fico a me perguntar. Investi numa faculdade, em
cursos de diversas línguas, em aulas de dança, em mil livros, muitas
viagens para fazê-la uma mulher independente, quase pronta para não
precisar se submeter à profissão de esposa, refém emocional e
financeira de algum alguém. Queria que ela tivesse a opção de ser
amada e de amar, sem vínculos empregatícios, que geralmente terminam
na justiça, brigando por tampa de privada. Queria deixá-la à vontade
para ser solteira, juntada, amasiada ou casada amada. Não coloquei
expectativa de fama e fortuna para ela, mas no mínimo um amor que
soubesse apreciar Tom Jobim e uma cabana com ar-condicionado.
A vida mudou, as mães da atualidade não usam mais avental, se vestem
iguais as filhas, fazem análise para não causarem traumas nas crias,
não falam um não, palmadas nem pensar, mas não conseguem agradar. O
papo maternal sempre será pra lá de Marrakesh na visão da mocidade.
A coleguinha é que tem sempre razão.
Só acordamos na meia-idade, e aí viramos bezerros gritando mamãe,
quando ela já está pra lá de Teerã.
Vou substituir meu analista por um avental. É mais barato e o efeito
é igual.
A ser culpada, mãe sempre é, que seja com uma graninha extra pra
realizar algum sonho que mamãe brecou. Diminuo a responsabilidade
que lhe coube de não ter sido apenas minha coleguinha.
(26 de novembro/2005)
CooJornal no 452
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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