
03/12/2005
Ano 9 - Número 453
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Ho, ho, ho
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Fui ao shopping para começar as compras de natal. Enfeitadíssimo
e o majestoso papai Noel sentado logo na entrada para posar em fotos
com as criancinhas no colo. Lembrei-me que a Carol, minha filha,
sempre teve um medo terrível do bom velhinho e eu jamais consegui
que ela tirasse uma foto com ele, por mais que ele sorrisse para ela
e fizesse promessas vãs. Agora talvez ela sentasse no colo do Noel
caso ele fosse um Gianecchini e nem precisaria de sorriso ou
promessa. Ho, ho, ho! Piadinha sem graça essa minha!
Passei em frente a uma galeria de arte. Fiquei parada olhando
quadros originais e serigrafias perfeitas do Volpi, Fernando
Brennand entre outras. Maravilhas da vida, quase vivas, prontas para
saltarem das telas de tão expressivas. Observei porém, que as
molduras eram feias, rudes, sem acabamento. Não mereciam estar
envolvendo estas obras geniais, fruto da inspiração divina.
A pressa me fez partir rápido e ir parar in front of ao Ponto
Frio Mauzão em busca do DVD que a Carol me pediu de natal.
Inúmeros televisores ligados exibiam propagandas com outros "Noéis"
cintilantes cheios de ofertas incríveis. Patins, bikes, carrinhos
com controle remoto etc. e tal. Compre hoje e pague no ano 5000 em
68 vezes sem juros; elas juram!
Um menino olhava fascinado para a TV, assim como eu anteriormente
havia olhado os quadros. A mãe preocupada tentava tirá-lo dali,
avisando-o que o máximo que ganharia de natal era um sapato novo e
olhe lá. - As propagandas são mentirosas e mesmo que não fossem, não
arrumo dinheiro nem nos próximos 3000 anos para pagar qualquer
extravagância. Apressou tanto o guri que ele finalmente se foi com
ar tristonho e totalmente jururu. Início de sua coleção de
decepções.
Fiquei pensativa olhando a TV e achei o caixilho que envolvia o
visor dela feio pra dedéu, um horror e não ho, ho, ho! Baixou o
astral geral.
Quando fico muito pensativa fico puta da vida.
Estranha essa sensação que comecei a sentir ao perceber que não
estava olhando apenas as molduras dos quadros e das TVs, mas sim a
tosca moldura da sociedade.
Desculpe Mestre. Destruímos sua obra.
Que risinho de hiena tem o papai Noel. Ta rindo de quê, se quando
acabar o natal não vai ter nem o que comer? Ho, ho, ho é seu avô!
Desculpe companheiro, foi sem intenção. Meu saco ta mais cheio que o
seu e não é de mensalão.
(03 de dezembro/2005)
CooJornal no 453
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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