
14/01/2006
Ano 9 - Número 459
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Made in Taiwan
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- Só tenho hora nas segundas e bem cedo; decretou Maurício.
Era numa Travessa antiga no centro da cidade. Lugarzinho deveras perigoso para
alguém ir só, às sete da manhã.N ão tinha onde deixar o carro e para se chegar
lá, tomava-se duas conduções.
Bem, era o dentista da confiança dela, então era pegar ou largar.
Topou o tal horário maluco.
Marcelo, o marido, numa demonstração de preocupação, resolveu que a
acompanharia.
Ela nunca havia ido pra aqueles lados, então aquilo soou como uma novidade.
Achou o maior barato essa aventura.
Acordava às seis da matina, um banho ligeiro, um café preto rápido.
Na tal Travessa; o consultório, uma confeitaria e um sebo com um monte de
“vinil” e livros.
Assim que acabava a consulta, a confeitaria começava a abrir as portas e vinha
um cheiro delicioso de pão doce. Uma tentação para quem estava em jejum.
Experimentou no primeiro dia, após a consulta, fazer seu desjejum ali.
De lá viu o dono do sebo levantar as portas.Outra tentação aquele vinil do Elvis
bem ali na sua cara.Não resistiu e atravessou. Começou a conversar com seu Abel,
o dono do local.
Naquele primeiro dia, voltou feliz com o coração aquecido pelos pãezinhos recém
saídos do forno e debaixo do braço veio uma raridade do rei do Rock.
Virou hábito, virou prazer, estas idas ao dentista.Tinha o depois.
Seu Carlos, dono da padaria, ficou íntimo e dava fatias de bolo de laranja,
biscoitinhos. Não cobrava, dizia que o sorriso dela bastava.Ela adorava a doçura
deste carinho.
Abel, lá do sebo, acenava mostrando algum álbum especial. Já sabia que ela era
fã dos Beatles e tinha fascínio por blues.
Marcelo achava tudo aquilo um saco.Ficava impaciente com aquela “bendita”
apetite, com o tal entusiasmo na velharia do sebo.Tinha uma pressa danada em
voltar pra casa.
Ela nunca soube o motivo da pressa dele, pois quando chegavam em casa, ele
apenas lia o jornal.
Aos poucos, aquilo que era um programa delicioso, virou pesadelo, tamanho o mau
humor de seu acompanhante.
Então desistiu do prazer.Resolveu sair do dentista e correr pro metrô.Sempre
silenciosa, não mais de mãos dadas, afastados, ofegantes.
Dois estranhos numa cidade louca .
Seu Carlos algumas vezes acenou e Abel chegou a perguntar pelo sumiço.Inventou
urgências que não existiam.Como dizer a alguém que abriu mão de seus pequenos
prazeres para atender aos caprichos de um amargurado?
Ir ao dentista virou sacrifício.Um estresse acordar cedo e voltar correndo pra
tomar um “nescafé” com pão de forma dormido na cozinha de casa, com ele lendo os
jornais cobertos de sangue do cotidiano carioca.
Este sacrifício só foi interrompido por um maior.Virar acompanhante de Marcelo
no hospital, enfartado entre a vida e a morte. Será que enfartou com as noticias
do jornal !?
Naquele corredor sombrio lembrou do cheiro do pão bem fresquinho e das capas
amareladas dos vinis.
Não seriam essas, as medidas preventivas para conservar as safenas?
Pena que o homem contemporâneo tenha perdido a liberdade de ser feliz.
Ou será que os corações andam vagabundos?
Made in Taiwan.
(14 de janeiro/2006)
CooJornal no 459
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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