
04/02/2006
Ano 9 - Número 462
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Aleluia, aleluia, aleluia!
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Angelina reuniu os filhos e pediu que fingissem para o papai que não
lembravam do aniversário dele. Moleza, pois já estão
acostumadíssimos com isso. Essa é talvez a décima festa surpresa que
fará para o maridão.
Ele merece mais e mais.
Ah! Como ela é feliz. Mulher casada há trinta anos com um homem só,
mulher de um homem só em tempos em que se troca de macho mais do que
de calcinhas. Já fez bodas de tudo, já fez festa de tudo. Adora o
momento dos brindes fotográficos. Seu álbum está lotado de
recordações.
Ah! Como ela é sortuda. Casou no momento certo, teve seus filhos na
ordem correta, meninos devem ser os mais velhos. Ambos adultos e
encaminhados. Formou-os de forma sensata, um engenheiro e outra
professora. Fez sexo benzido pelos óleos nupciais, nunca chupou
drops dulcora fora de hora. Sempre soube que Livinho (Sílvio) seu
marido era chegado a ler Zéfiro na mocidade e na atualidade viagra
no sexy hot. Coisa de homem que ela como mulher de bons costumes
aprendeu a fechar os olhos. Nunca se preocupou com a certeza de que
foi a bunda da vizinha que ajudou na estabilidade de sua relação.
Importante mesmo foi a Frigidaire que ganhou com dois anos de casada
e a Brastemp que hoje ostenta na cozinha de sua vida perfeita, fruto
das promoções do papai, não o seu progenitor, mas o papai da casa.
Jamais precisou trabalhar, apenas cuidar bem cuidadinho do lar. As
crianças deram trabalho, mas ser mãe é padecer no paraíso, sempre
foi, Doutor Delamare que o diga. Abriu mão de ser arquiteta, não ia
dar certo deixar os filhos com outros, isso nunca fez bem à criança
alguma. Ninguém cuida como a mãe, o Sílvio tem razão, aliás sempre
teve em tudo. Ele sempre foi pé no chão. Ainda bem que não casou com
aquele menino da vila que paquerou de longe na adolescência, que a
fazia ver estrelas até de manhã quando pensava nele. Ele era pé na
lua e sonhos não rendem um AP tão bem montado, nem pagam planos de
saúde. Hoje seria mais uma divorciada largada na night.
Esse ano a festa surpresa vai ser tripla. Sessenta anos do Livinho,
Sílvia sua filha está grávida de um varão e Ângelo, seu menino, vai
finalmente se casar com uma moça de princípios, de bem, de família.
Moça boa, professora da creche do bairro. Largou aquela uma, até o
nome era de pecadora, Yasmin, isso não é nome de moça feita para
casar e ainda por cima teima em fazer teatro, beijar em cena
qualquer três de paus afirmando que é arte. Arte do demo! Ele custou
a entender que sempre haverá uma vizinha com uma boa bunda para seus
momentos de dispersão. Casamento é coisa séria, não é samba, não é
bundalelê. A culpa toda é da TV! Maldita perversão que instiga a
este casa & separa, separa & casa. Tem que agradecer ao divino tanta
benção na vida. No jogo de desencontros deu olé no Satanás. Aleluia,
aleluia, aleluia!
Vai ser um festão. Agora mãos à obra. Fazer o bolo de Cremogeno, o
preferido da filha desde os tempos do mingau, a mouse de maracujá, a
escolhida do filho, o famoso chuvisco, doce de todas as festas, pois
o Livinho adora. Sem chuvisco a reunião vira temporal. Não vai fazer
pudim de claras com as sobras do chuvisco que só leva as gemas,
afinal só ela que gosta. Trabalho à toa, apesar de não admitir
desperdícios no orçamento. Depois faz suspiros das claras
abandonadas, seu genro venera. Vai esperar apenas essa dorzinha de
cabeça enjoada, que sente todos os dias de manhã, passar. Sem
diagnóstico essa danada dor que já vai pra trinta anos.
Também não se pode ter tudo na vida né?
(04 de fevereiro/2006)
CooJornal no 462
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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