
11/02/2006
Ano 9 - Número 463
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Jujubas & delicados
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Cultuo o Deus da delicadeza. Esse Deus não é nenhum Adônis, muito
menos um Stallone. Esse Deus é como abelha em flores. Transforma a
vida em mel. Como todo Deus tem alguns adeptos, porém muitos ainda
desconhecem sua divindade. Pouquíssimos homens o veneram, pois vivem
preocupados com o que os outros vão pensar; acham-se menos machos
por terem atitudes que foram intituladas femininas. Ainda ouço entre
eles:
— Coisa de mulherzinha.
Certos homens não mandam beijos, apenas abraços com a intenção de
mostrar seriedade, outros quase mandam um chupão por trás de um
"inocente" tchau. Os delicados mandam sempre beijos, cedem razão,
esbanjam emoção. Pena que ainda não saibam ao certo o quanto de
atração exercem nas mulheres resolvidas, aquelas que na padaria
sabem que o acontecimento é o pão e não o padeiro, onde o sexo vira
seguro com a camisinha do afeto, onde o não dito é que é
sensualíssimo. Ouço e leio diariamente sobre sexo, sexo & sexo,
onde o pecado é o excesso do dito e não do bendito, este me dá
extremo prazer quando consigo imaginar a ereção do gentil, a
penetração da paixão, o orgasmo do amor.
Os homens gentis bordam com lantejoulas douradas minhas fantasias
eróticas. Os grossos engrossam o bloco dos desnecessários no
dia-a-dia, principalmente na poesia que tempera nossa rotina, até
porque ainda não são todos os que nascem Nelson Rodrigues,
Almodóvar, Adélia Prado e alguns outros também pra lá de ótimos,
seja no realismo, no erotismo, no chulo, no obsceno, no sexo
bem-humorado, no escracho bem escrachado. Estes quando escritos com
talento, valem tanto quanto mil poemas líricos cobertos de
borboletas. Bocage ou Camões? Amo ambos de paixão! Não é bem essa a
questão. Volto ao mau gosto, ao repetitivo que virou desgosto. Será
que esses "gênios" se imaginam Aladins pornôs, que vamos nos
esfregar nas suas lâmpadas e ter três desejos realizados na hora?
Fora essa de carne e só carne, eu ando sentindo falta, muitíssima
falta, do sorriso tímido do homem delicado, do jeito inseguro do
homem maduro, das desculpas, das culpas, dos medos confessos, das
incertezas tão certas que ninguém é sempre o máximo, apesar de
tantos afirmarem que são mais que perfeitos! Lembrei do Clark Gable
em final de carreira, cansado de saber que não era o maravilhoso da
tela. Ao ser assediado por fãs num hotel, chegou na janela e gritou:
— Vocês querem meu sorriso? Pois aqui está. Depositou sua dentadura
no parapeito e foi dormir aliviado, como afirmou depois em
entrevistas.
Os grossos extremamente seguros!?, que acham que nossa emancipação
se resumiu apenas em deixar que nos passem a mão, que deliram
imaginando que são donos exclusivos do charme e da sedução,
geralmente partem pro grotesco e invariavelmente deixam suas
dentaduras em pequeníssimos detalhes. Por vezes apenas numa
monossílaba percebe-se um dente postiço caindo. Ficam ainda mais
estúpidos quando assaltados pelo medo que despenquem todos de uma só
vez. Não são nem filhotes de Gable, que dirá Clark. Ameaçados em sua
virilidade viagra calam-se com um arzinho ofendido, antes que as
polissílabas os deixem banguelas na cara da platéia.
Amo os gentis que sabem que o amor não é quantificado como também
não deve ser beatificado. O amor deve ser apenas amado, de
preferência com muita luxúria em todas as formas e tons, mordido e
saboreado em seu momento jujuba, mas que o depois seja como o
começo. Um frasco de perfume ofertado, um beijo bucólico, um poema
florido, um gesto de carinho bem delicado.
(11 de fevereiro/2006)
CooJornal no 463
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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