18/02/2006
Ano 9 - Número 464

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena

 

Me engana que eu gosto!


 

Ele chega cheirando a perfume barato. Ao ser indagado diz que estava com a outra. É óbvio que não acredito neste absurdo. Imploro que fale a verdade. Então, ele diz, que experimentou algumas gotas em seu próprio corpo, apenas para saber o aroma e comprar para mim. Fico feliz. Afinal é uma relação de mais de vinte anos.

Bota tempo nisso!

Marcelo, meu primeiro grande amor, deixou-me por outra. Casou-se com ela. Jurei que não daria certo, no entanto já fizeram bodas de prata. Estou feliz com sucesso deles. Já faz tanto tempo e este não é a solução para tudo?

O creme de leite perdeu a validade. Parece que comprei ontem, mas foi em agosto. Esqueci-me dele, afinal fiquei de dieta por tanto tempo. Desde da data de sua compra, mas a dieta não parece que começou ontem. Tem um século que não como um chocolate.

Nunca parei para cronometrar o tempo que levo para abrir a garagem, nem mesmo conto os minutos perdidos nos sinais, as buzinas contam por mim. Nas propagandas na TV, sei que dá tempo de tirar a carne do freezer e ainda beber um suco. Qualquer fila vira uma era. Sei que o tempo é longo quando é tempo de espera. Curto nas despedidas. Sempre faltou aquilo que não se disse, e o culpado é ele que acabou num instante. Sei também que o secador de cabelos leva horas quando está quente na minha cabeça, e que uma gravidez sonhada não demora nove meses até a chegada da quimera.

Se eu optar pelo silêncio, um alô vira temporada de gritos.
Se eu escolher o barulho, o silêncio vira período de luto.

Chego novamente à conclusão de que o tempo é o momento. Já tinha descoberto que depois dos quarenta ele voava na idade e parava nas saudades. Só achava que agora, depois de saber da malandragem dele, não mais me deixaria levar e não perderia um minuto do meu precioso período na Terra. Ledo engano. Passo boa parte do meu dia aguardando a minha vez de ouvir ele dizer que me ama. Se não diz, afirmo que viramos apenas ótimos amigos e que isto é lindo. Tanto tempo de convivência e já não somos mais dois adolescentes apressados. Temos que ter paciência, daquelas que se aprende com o tempo, justamente quando não mais o temos.

O tempo ainda me engana. E quem disse que quero a verdade?



(18 de fevereiro/2006)
CooJornal no 464


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net