
25/03/2006
Ano 9 - Número 469
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
LISA, LESE E LOUCA...
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Finalmente as férias. Vou para a região dos lagos, que ainda
considero o paraíso. Não é mais como era, pois há alguns anos
aconteceu por lá a terceira invasão francesa. Tenho certeza de que o
Mauricinho vizinho de minha casa, é tataraneto do Nassau.
Tudo bem, dispo a implicância e prometo que nada estragará meu
descanso.
- A cidade está lotada - avisa-me Tereza, minha caseira. - O Jorge
Versículo vai cantar dia 29 na praia.
- E o Tony Capítulo também vem? - faço uma gozação com ela. Somos
amigas e temos intimidade que vai além dos vínculos de trabalho.
Desisti de avisar que o Jorge é Versilo, não adianta. Ela cismou com
Versículo.
Terê é a esposa do Valdenir, meu caseiro há quase dez anos. Eu a
conheci num dia em que andava na orla, final de tarde, esperando o
pôr-do-sol.
Ela estava vendendo sacolé de manga e o aspecto do dito estava
divino. Destemida e gulosa, encarei dois logo. Na hora de pagar,
percebi que estava sem dinheiro e falei com ela que fosse comigo em
minha casa para receber. Topou na hora. Disse que estava lisa,
totalmente lisa, economizando até latido de cachorro para
sobreviver.
Fomos conversando e fiquei sabendo que a mocinha viera do interior
do Espírito Santo, com o irmão, tentar a sorte no Grande Rio. Se
ferraram como a grande maioria dos migrantes e, de galho em galho,
para sorte minha, vieram parar nestas bandas.
Ele, peão de obra; ela, vendendo o que sabia fazer: sacolé (um
saquinho, cheio de suco de fruta, que vai ao congelador e vira
sorvete-pedra... bonzão).
Quando chegamos em minha casa, eu já estava encantada com a menina
de olhos grandes e espantados, um sorriso largo contagiante, que até
hoje permanecem estampados em seu rosto.
Fui apanhar o dinheiro e ela ficou encostada no tanque. Quando
voltei, vi que lavava acariciando uma blusinha branca minha.
Agradeci e disse que não precisava ter se dado àquele trabalho, mas
ela revidou dizendo que havia sido uma alegria tocar numa fazenda
tão bonita. Queria se casar, vestida naquele tecido. Disse-lhe o
nome: Lese.
Tereza despediu-se de mim, repetindo baixinho a palavra nova:
"Lese... lese... lese".
Fui tomar banho, pensando nela. Lisa, sonhando com lese.
No dia seguinte fui fazer meu passeio habitual, intimamente desejosa
de rever a sonhadora.
Desejo, hoje sei, compartilhado com ela. Nos encontramos e, entre um
sacolé de abacaxi e um de uva, fomos caminhando até minha casa de
novo. Adorável a conversa que se tem com a simplicidade, de quem não
tem aparentemente quase nada e tem tanto. Tem sonhos, ilusão, fé,
esperança de uma criança.
Neste dia ela conheceu o Valdenir, na época jardineiro do local. O
olhão dela brilhou e naquele momento presenciei o nascimento de um
amor.
Voltei para o Rio, no dia seguinte, com o pressentimento que a
partir dali não perderia Terê de vista.
Dito e feito. Dois meses depois voltei num feriadão e fui convidada
a ser madrinha do casamento.
Disse a ela que era precipitado, que um ato desses deve ser pensado.
Mas Tereza falou categórica que estava louca, loucamente apaixonada
pelo Valdenir.
Nada mais acrescentei, apenas abençoei. O vestido, fiz questão de
presentear.
No verão de 1994, a menina lisa entrou de lese, louca de felicidade
na capela da cidade.
Hoje, no final do meu jardim, tem uma casinha com azaléias na
entrada, e uma geladeira sempre cheia de sacolé.
De que sabor? O sabor do amor.
(25 de março/2006)
CooJornal no 469
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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