
15/04/2006
Ano 9 - Número 472
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Azul da cor do sol
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Quando eu era criança
conheci seu Alfredo, que com o tempo descobri ser daltônico. Foi difícil
entender como alguém não via o mundo com as mesmas tonalidades de cores,
pois sempre achei que o azul nascia exatamente igual para todos. A partir
desse fato comecei a questionar se as outras pessoas que não sofriam de
daltonismo, enxergavam da mesma forma as cores. Perguntei ao meu pai e ele
disse que mais tarde a vida me daria à resposta não científica para isso.
Certa vez estava na praia com meu sobrinho, quatro anos na época, que já
conhecia quase todas as cores e inúmeras formas. Fazíamos castelos na
areia para proteger os tatuís dos surfistas. Ipanema estava com uma enorme
mancha negra de óleo e todos comentavam o fato. Ele começou a chorar, pois
não conseguia ver a tal negritude por mais que a mãe, já irritadíssima, o
mostrasse. Ela demonstrou preocupação com a aprendizagem do filho, aliás,
nossos filhos já têm que nascer doutor... Faz favor!
Depois de um certo tempo, não resistindo ao choro dele, peguei-o no colo e
perguntei o que ele via de diferente no mar que não fosse o azul.
Respondeu-me que via um golfinho imenso dourado. Reparei naquele momento
que o sol batia na mancha e as ondas davam a forma de um ser marítimo
nela. Pintura abstrata na visão de uma criança que ainda enxerga o mundo
bem colorido e nós vivemos insistindo em precipitar o concreto. Acho que
me fiz poeta naquele momento para me refazer criança, com direito de
colocar cor de groselha nos peixes que nadam na terra prateada que nasceu
no meio do meu quarto. Papai, antes mesmo de ficar cego, adorava sentir o
calor turquesa do sol. Não, não era alienado, nem eu sou. Meu sobrinho?
Formou-se em jornalismo sem manchas negras no currículo, mas optou em ser
um escritor de poemas da cor dos olhos de sua amada.
Mel para o mundo, verdes para ele.
(15 de abril/2006)
CooJornal no 472
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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