"Nunca me esquecerei que no meio do
caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."
Carlos Drummond de Andrade
Luiz apaixonou-se de imediato. Paixão braba, aguda, agudíssima, (daquelas
que juramos eternas e nem precisamos da ressalva “eterna enquanto dure”),
pois a amada era imortal, ele sabia disso, e considerou desde o início
quem partiria primeiro seria ele. Situação confortável essa, do amor
interminável. Entregou-se geral, sem senão algum. Afinal, apesar do alvo
de sua paixão não possuir beleza alguma, não ter um brilho ofuscante,
aliás, era totalmente sem brilho, opaca mesmo, era ela quem estava
presente no seu dia-a-dia, concretamente em seu caminho em qualquer
situação, fosse chuva ou sol, primavera ou verão. Não questionou idade,
ela era, lógico, bem mais velha (é perene) do que ele, mas o tempo jamais
passou ou passará para ela (exatamente igual é, foi e ficará com ou sem
calendário). Também não especulou valores, não questionou o passado, não
criou expectativas coloridas. A convicção da paixão solidificada, palpável
a qualquer momento é profundamente cômoda.
Conheceram-se quando ele esbarrou nela num dia de pressa em que fugia da
chuva. Precavido, nunca quis se molhar. A urgência cessou no impacto do
encontro e no primeiro momento, o susto foi o sentimento maior. Depois
veio a dor, veio até sangue vivo que coloriu as poças, responsáveis pelo
encontro tão sólido em tempos de tantos choques gasosos.
Luiz nunca mais mudou de caminho. Sempre a encontrou parada a espera de
alguém aos seus pés e ele se fez presente diariamente, contente com a
certeza do real, condensado, imutável. É tudo que os que já esgotaram seus
sonhos precisam. Certezas bem certas, palpáveis na mão. Convicção do
exato, sem perigos de súbitas surpresas.
Foi um homem feliz até o dia em que a prefeitura de sua cidade resolveu
repaginar ruas e avenidas. Perdeu-a de vista em nome do avanço. Praga do
destino? Onde fica o inalterável?
Hoje ela está lá no alto, inalcançável para ele, britada e misturada com
cimento e água naquele arranha-céu.
Sobrou de recordação o dedão deformado na maldita topada dada.
Atualmente nem pedra tem coração.
(22 de abril/2006)
CooJornal no 473