22/04/2006
Ano 9 - Número 473

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena
 

concretíssimo

"Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."
Carlos Drummond de Andrade


Luiz apaixonou-se de imediato. Paixão braba, aguda, agudíssima, (daquelas que juramos eternas e nem precisamos da ressalva “eterna enquanto dure”), pois a amada era imortal, ele sabia disso, e considerou desde o início quem partiria primeiro seria ele. Situação confortável essa, do amor interminável. Entregou-se geral, sem senão algum. Afinal, apesar do alvo de sua paixão não possuir beleza alguma, não ter um brilho ofuscante, aliás, era totalmente sem brilho, opaca mesmo, era ela quem estava presente no seu dia-a-dia, concretamente em seu caminho em qualquer situação, fosse chuva ou sol, primavera ou verão. Não questionou idade, ela era, lógico, bem mais velha (é perene) do que ele, mas o tempo jamais passou ou passará para ela (exatamente igual é, foi e ficará com ou sem calendário). Também não especulou valores, não questionou o passado, não criou expectativas coloridas. A convicção da paixão solidificada, palpável a qualquer momento é profundamente cômoda.

Conheceram-se quando ele esbarrou nela num dia de pressa em que fugia da chuva. Precavido, nunca quis se molhar. A urgência cessou no impacto do encontro e no primeiro momento, o susto foi o sentimento maior. Depois veio a dor, veio até sangue vivo que coloriu as poças, responsáveis pelo encontro tão sólido em tempos de tantos choques gasosos.

Luiz nunca mais mudou de caminho. Sempre a encontrou parada a espera de alguém aos seus pés e ele se fez presente diariamente, contente com a certeza do real, condensado, imutável. É tudo que os que já esgotaram seus sonhos precisam. Certezas bem certas, palpáveis na mão. Convicção do exato, sem perigos de súbitas surpresas.

Foi um homem feliz até o dia em que a prefeitura de sua cidade resolveu repaginar ruas e avenidas. Perdeu-a de vista em nome do avanço. Praga do destino? Onde fica o inalterável?

Hoje ela está lá no alto, inalcançável para ele, britada e misturada com cimento e água naquele arranha-céu.

Sobrou de recordação o dedão deformado na maldita topada dada.

Atualmente nem pedra tem coração.



(
22 de abril/2006)
CooJornal no 473


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net