29/04/2006
Ano 9 - Número 474

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena
 

Opção

 Difícil opção.

Se pelo menos não existisse o vazio absurdo da vida real, a escolha seria mais fácil.
Mas ela aqui estava, exatamente para preencher a lacuna do dia-a-dia, onde era vista apenas como uma passante. Então, se não conseguia mudar o mundo, havia mudado de mundo. Virtual substituindo o real, tão seco, tão árido, tão egoísta. Este novo mundo tinha a vantagem de poder deletar amarguras, bloquear inconveniências. Aqui se podia até morrer estando-se vivo. Não mentindo, apenas sumindo. Desaparecendo.

Não precisava fingir que estava doente para faltar. Sempre existia a honrosa saída de dizer que a conexão estava ruim, o provedor era o culpado, ou até mesmo a luz.
Foi se acomodando ao mundo novo, que aos poucos foi deixando de ser novo, e ficando tão gasto como a sua própria vida. Percebeu isto, quando começou a questionar-se.

Ora bolas, onde estão aqueles que em apenas uma semana aprenderam a se adorar?

Cadê os fiéis companheiros? Cadê a confiança de se conhecer sem se ver?

E veio a constatação que novamente era uma passante, ou melhor, apenas uma figuração de um, dois, três ou mais grupos virtuais. Cada dia entrava em outro, pois a fase inicial do bem vinda, do apreço, do carinho, é sempre reconfortador.

Droga, grande droga. Fica ou vai? Se vai, vai para onde? Volta para o real sem emoção?

Por ser educada e ética, reprime seus impulsos. Não agride. Somatiza; sofre de dor de cabeça, insônia, depressão. Bode! Esse incomoda pra dedéu. Não consegue ser a Xuxa que estica e puxa a alegria, não consegue ser permanentemente hiena.

A busca será eterna em qualquer lugar, a qualquer momento. Eterno mistério.

Nesse emocionante jogo da vida os prêmios e as penalidades, são de acordo com o valor das apostas.

Vale a pena apostar de novo mais algumas fichas? Ainda existem tantas promessas de vida em seu coração!

Não consegue excluir a poesia de seu viver. Ela acredita em Romeus e Julietas.

As uvas, antes tão apetitosas, tornaram-se verdes, mas não tão ácidas, que não valha a pena esperar que amadureçam novamente.

Então decide-se...Tentará novamente saboreá-las, porém com a certeza que apenas um lado consegue torná-las suficientemente saborosas para o paladar virtual.

Os que acreditam na velocidade de Dom Quixote, concebido por Cervantes no fundo de um cárcere.

"Ladram, Sancho, sinal que cavalgamos”.



(
29 de abril/2006)
CooJornal no 474


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net