
20/05/2006
Ano 9 - Número 477
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
minha máxima culpa!
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Você se foi tão de
repente, sem referendo algum. Não tive liberdade de escolha, ainda não se
decide isso por aqui, apesar dos humanos se sentirem maior que Deus. Penso
em você e imagino-o conversando com o George Harrison, ambos fumantes. Aí
é proibido fumar? Tem que se ir ao purgatório dar três tragadas rapidinho
e voltar? É um inferno ou um paraíso? Aqui o Cristo Redentor continua de
braços abertos, mas os olhos estão cada dia mais fechados. Será que a
culpa é do cigarro? A Tsunami acho que foi sim. Será que eu tô fazendo
apologia e a galera vai cair de pau? Não deveria, pois já estou convencida
de que o planeta vai acabar por culpa dos fumantes. Minha culpa, minha
máxima culpa!
O Maraca não fica mais lotado em dia de Fla x Flu; o estádio está tão
doente quanto o Rio e os fumantes. Os flanelinhas continuam exigindo dois
reais a cada estacionada de carro, institucionalizou-se esta multa.
Fumante deveria pagar mais. A empada praiana ainda dá piriri, em fumantes
deveria dar mais, como castigo. Os tiros ressoam bem alto em nossos
ouvidos, culpa do cidadão que foi dizer não à proibição de armas. Estes,
com certeza fumam muito! A Feiticeira ainda usa esteróides anabolizantes,
mas virou crente e parou de fumar, que nem a Darlene Glória e jogador de
futebol decadente. Viraram exemplos de força de vontade. O café do Rio Sul
continua uma delícia e o garçom permanece preguiçoso. Lá não se pode mais
fumar. Shopping agora é um lugar muito saudável. O botox barateou demais,
então as mulheres estão todas com cara de arigatô! Não tragam, pra não
criar bigode chinês, rugas de expressão! Botox não faz mal algum. Sacou,
baby? O celular está menor que um isqueiro, porém eu insisto em não
aprender a usá-lo. Permanecem os desafios: operar um celular e parar de
fumar, duas coisas facílimas e corriqueiras. Uma amiga comparou ambos e
afirmou que basta querer. Vou usar Ziban para as ligações.
No inverno está fazendo muito calor e no verão, frio pra dedéu, culpa do
efeito nicotina. Em cada esquina persiste um pagodeiro ex-fumante, só
viciado em bebida, esta não liquida o azul do céu. Querem virar
celebridades no Faustão e este ainda briga com o Gugu, um cara muito
bacana, pois nunca fumou, pela audiência no domingo "legal". Quebrar
barraco também virou moda. Amassar maços de Free poderia virar, né? A
violência aumentou muito e o presidente transferiu a responsabilidade
desse caos total para nós, o povo. Fica com a responsabilidade maior, é
óbvio, o viciado em nicotina que, certamente, tem escopeta. Bastou ter
arma que se virou guerrilheiro, portanto, seu bisavô — adepto de Ghandi e
chegado numa cigarrilha — não era da paz. Ele tinha aquela espingarda na
parede e muita fumaça na alma.
Não tente achar sentido em nada, pois nunca fomos bons em lógica, não
conseguimos parar com o vício. Uma novidade é o "nome" do roubo dos
políticos, que agora se chama mensalão. Ou cuecão, uma puta sacanagem que
não dá tesão. Tem gente morrendo por isso. Deveria se chamar cigarrão, que
é um mal social bem maior! Decerto, a seca no Amazonas é culpa dos índios,
que sempre foram chegados ao tabagismo. Enfim, a transferência de
responsabilidade sempre foi a grande solução do mundo.
Ontem fui votar a questão da comercialização de armas. Estacionei e fumei
um cigarro dentro do meu carro. Fui abordada por um adepto do Sim, que
perguntou qual a minha opção. Disse Não! Olhou com asco para a minha mão.
Mereço provavelmente a cruz e levar muita pedrada. Sou o tipo de pessoa
nociva para um mundo tão puro de idéias e ideais. Sem tribo, é como eu me
sinto. Fantasiar foi o que restou. As linhas de acesso: além da amarela e
da vermelha, agora tem outra. Branca! Da cor de seus cabelos. Linha
imaginária de uma só mão. Por ela toco na sua. Nela e nas espirais da
fumaça assassina eu viajo. Forma de continuar a viver sem você, que
acendia meu cigarro sem me olhar, como se eu fosse um ET.
Por que aquele carro atropelou você? Sou capaz de apostar: porque você
fumava.
In memoriam Jorge, meu pai.
(20 de maio/2006)
CooJornal no 477
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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