Ele veio do Recife
com vinte anos. Chegou ao Rio de Janeiro em 1946. Não veio como retirante,
mas sim atrás de Linda, minha tia, irmã de minha mãe. Tinham se conhecido
quando meu avô havia ido a Pernambuco rever seus maiores amigos, os que
optaram na emigração do Líbano para o Brasil em ficar por lá, tal o
encanto com o litoral nordestino. Linda havia só flertado com ele, não
existia “ficar”, no bar Savoy bem no centro de Recife, um lugar muito
badalado pela intelectualidade. Apenas troca de olhares e alguns sorrisos
enrustidos. Ele era um menino alegre. Tinha o dom de desenhar e virou o
caricaturista do bar. Tinha o maior trânsito com alguns que se
transformaram em notáveis, como Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Capiba,
freqüentadores do local. Ainda estão guardadas estas caricaturas, que hoje
dimensiono o imenso valor cultural.
Chegou na aldeia carioca trazendo apenas o desenho do rosto dela.
Vovô não aprovou o casamento por diversos motivos. Ele não era da colônia
libanesa, fato relevante na cabeça dele, não era estudante, não era
comerciante. Era um “nada”, concepção social da época, visto que ser
desenhista na década de quarenta era próximo a ser um parasita. Vítor,
porém, era um rapaz apaixonado e persistente. Acho que sempre esteve à
frente do seu tempo.
Quando comecei a me entender como gente, eu sabia que tinha um tio
diferente e muito legal. Que ria sempre, gamadíssimo na mulher, super
paciente conosco na adolescência e que passava horas numa prancheta
desenhando. Além de caricaturas e outros desenhos, ele fazia plantas de
apartamentos, que os arquitetos formados assinavam por ele. Não era rico
nem famoso, muito menos obediente ao "padrão" de homem bem estabelecido.
Ganhava o suficiente para manter a pequena família (mulher e uma filha)
sem luxo, mas sem sufoco. Seu supérfluo era dar flores para titia. Nossos
presentes de aniversário sempre foram nossas caricaturas ou charge dos
evidentes circulantes.
Quando perguntavam o que ele era, ele respondia de forma convincente:
- Um homem feliz.
Foi meu companheiro na compra do primeiro LP dos Beatles. Foi meu
ouvinte quando tomei meu primeiro chifre, me apoiou com muitos sorrisos
quando afirmei que namorava o Steve
McQuenn. Agüentou meu casamento com o Tchê Guevara,
meus ciúmes doentios da mulher do George Harrison, minhas cartas
sem retorno pro Al Pacino.
Assisti ao choro dele ouvindo Pavarotti e descobri como é bom
chorar de felicidade.
O grupo Chicago lançou Happy Man, no ano das bodas de prata
deles.
Ele não fez festa, apenas mandou tocar esta música bem debaixo da janela
dela e afirmou que ele era o happy. Serenata maluca, afirmaram muitos.
Serenata que eu adoraria ter tido, talvez por eu ser tão maluca quanto
ela.
Queria ter sido apenas uma happy woman!
Linda partiu em 2002. Não consigo saber se titia avaliou o amor
maravilhoso que ganhou deste homem contente.
Ele está com um mal (talvez Alzheimer), num diagnóstico ainda não
diagnosticado. Esqueceu que ela se foi. Lembra da letra inteira de
happy man e ainda canta baixinho, desenhando o rosto dela numa tela.
Ps:
Happy man/ Homem Feliz / Conjunto CHICAGO - 1974
(03 de junho/2006)
CooJornal no 479