
17/06/2006
Ano 9 - Número 481
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
LOVE ME TENDER
(AME-ME COM
CARINHO)
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Não há nada mais down que o final de uma relação, onde ainda existe
amor no ar, e acontece em alguma das partes a traição. O interrogatório do
enganado se torna patético, pois se sujeita e sujeita o parceiro a uma
competitiva fúria indiscreta. Onde? Foi em motel? Quando? Com conhecido?
Nos dias do dentista? Todos os dias? A outra parte silencia para poupar os
detalhes que não levam a nada ou fica enfurecida e acaba dando-se por
vencida, confessando que o novo amor é: - Carinhoso, meigo, lindo, tudo de
bom, o oposto do que já vivi contigo.
O traído finalmente tem a resposta que queria ouvir?! Agradece a
“sinceridade” e pede então o inverso: -Poupe-me dos detalhes sórdidos!
Bizarro e intenso ritual este que precede o final de um romance, onde
existia uma dupla e vira um trio. O passado vira negação, zombaria,
mentiras. Invalida totalmente a vida vivida. O presente passa a ser
acusação, choro, ameaças.
O interrogatório despe o traído de todo o orgulho, amor-próprio, vaidade,
respeito de si mesmo. Será que depois o atraiçoado se sente melhor?
Certamente que não. Quem quer saber que o corpo amado, objeto de paixão,
idolatrado, desejado, foi acariciado por outro alguém? Os suspiros, antes
exclusivos aos seus ouvidos, escutados pelo novo amor? Que mágoa danada!
Caso a traição seja da mulher, o filho venerado que sempre foi à cara do
pai vai pro DNA, mesmo tendo aquele sinal idêntico ao do progenitor na
coxa esquerda.
Famílias, amigos, vizinhos, periquitos, papagaios em extinção, são
notificados que uma relação tão linda “A-CA-BOU”.
-Quem diria que era só fachada!
- A mim nunca enganou! Ele sempre teve cara de corno e ela de vadia.
Vocês não eram santos até bem poucos dias?
Se você vai partir porque já não agüenta mais essa relação, parta sem
muita explicação, sem muitas alegorias de rancor, sem adereços de chifres,
sem querer buscar razão para si, mesmo que existam cem delas, pois pode
querer reverter amanhã esta situação. Nunca mais é coisa de dias, sempre é
coisa de momento.
Quanta a traição, se foi sua, diga que traiu só por tesão e seu ato não
tem perdão. Assuma que é filho da puta, que já nasceu torto na vida, que
seu raciocínio se localiza entre as pernas.
Adeus, “quatro letras que choram”, mesmo que as lágrimas sejam de alívio!
Finais são sempre tristes, mas não necessariamente ridículos.
Casou engomado e vai sair todo rasgado?
Resolveu ficar e recomeçar?
- Permaneça, mas nada de discursos cômicos, nada de apelação. Você não
está concorrendo a prefeito (a). Já foi eleito. Apenas coloque um som,
abra um vinho e diga:
- Você é e sempre será minha única paixão!
O amor quebra, cola, perde, acha, acaba, principia, mata, nasce, renasce,
se for amor. Amor de fato. Nele não cabe muita teoria, mas sim muito
carinho. Com ele virá naturalmente o indulto e a renovação.
-Júlio! Aumenta o som.
-Marta, mais um copo de vinho?
-Dançamos LOVE ME TENDER?
(17 de junho/2006)
CooJornal no 481
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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