
08/07/2006
Ano 9 - Número 484
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Butterfly sem madame
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Entrou no
piano bar com a cara inchada de tanto chorar, luxo que não se pode ter
mais na sua idade. Final de expediente de uma quinta-feira chuvosa. Local
de casados que tomam o último drink do dia, para relaxar antes de irem
para casa e encarar o outro negócio, um casamento que é apenas uma
associação de interesses mútuos, onde separar custa uma grana. Business
to business. Celular lado a lado com o Martini. De vez em quando um
tocava e o silêncio reinava. Era uma das madames procurando o fujão.
Cumplicidade na escapulida, condescendência geral por se reconhecerem
entre si, todos viúvos da felicidade. Pediu um copo de vinho e ficou
ouvindo o som do dedilhar quase automático do pianista, que sabia que
ninguém repararia se ele errasse uma nota. Era apenas parte do cenário
assim como ela em sua casa. A cena só ficava completa com os quatro
lugares ocupados na mesa de jantar. Um pai, uma mãe e dois filhos lindos.
Valia uma foto no portal da família.
Ter aquele amante a incomodava, metamorfose ao contrário, ela saía dos
encontros se sentindo uma larva nojenta, enquanto em casa era uma
borboleta que não voava, butterfly imbecil, mas sempre é melhor que ser
larva.
Terminou de vez e bem rápido com o Guto. Que história é essa de pedir que
ela se separasse do marido e fosse com ele para Grécia? Tinha uma família,
ora bolas!
Ele vai hoje de vez, daqui a exatamente duas horas. Paciência. Outro virá
para tirá-la da mesmice daquele bar, daquele lar, daquela de borboleta sem
voar.
A despedida foi na areia, o mar batendo suave e depois mais forte.
Adoravam o mar, em seus devaneios a dois, sonhavam em viagens como as do
Amir Klink.
Lembrou-se das palestras do Amir, onde ele narrava muitas façanhas, mas
uma ficou gravada em sua memória. Contou que quando chegou ao Pólo Sul,
dormiu muitas horas seguidas. Quando acordou, começou a andar pelo barco,
e percebeu que as cordas estavam cheias de gelos pendurados, como sinos de
cristal, num formato belíssimo, jamais visto. Correu sem cuidado para
buscar a máquina e tropeçou numa das cordas, deixando o fantástico cenário
despencar. Como ele ainda ficaria por um bom tempo lá, não deu muito valor
ao fato de imediato. Tiraria as fotos dos fenomenais pingentes em outra
ocasião, mas para sua tristeza aquela maravilha nunca mais ocorreu.
- Garçom! A conta e chama um táxi que me leve ao aeroporto! Urgente,
urgentíssimo.
- Aconteceu algo?
- Sim! Andei dormindo demais e preciso impedir que os sinos quebrem, pois
nunca mais terão outros iguais.
Saiu voando, desta vez uma esplendorosa butterfly, mesmo que não madame.
(08 de julho/2006)
CooJornal no 484
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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