
15/07/2006
Ano 9 - Número 485
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Peculiar
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- Conseguiu
finalmente matriculá-la?
- Não, nesta também não aceitam crianças especiais.
- Explicou que ela fala a nossa língua, apesar de forma ligeiramente
diferente, mas que dá para entender perfeitamente? Que faz xixi no
banheiro deixando apenas alguns pingos fora do vaso, que come com as
próprias mãos sujando só um tiquinho a toalha, que sabe andar sozinha,
sorri bastante feliz, ainda que tardiamente, nas brincadeiras e chora
sentida mais rapidamente com agressões? Que adora batata frita,
hambúrguer, coca-cola e sorvete? Que faz festa de aniversário todo ano e
adora ganhar adesivos bem coloridos? Que acredita em Papai Noel embora
morra de medo dele? Que sonha em ter um monte de amigos, mesmo não sabendo
que sonha com isso? Que não sabe o que é proibido e o que é permitido só
enquanto não for avisada? Que já aprendeu o que é prêmio e castigo? Que
tem adoração por pintinhos e pena das formigas? Que sabe um monte de
coisas, porém, não enxerga ainda que sabe?
- Sim, mas o colégio não aceita crianças diferentes.
- Será que ela ficou tão peculiar, por saber tocar violino sem partitura
aos sete anos ou a culpa são os seus olhinhos amendoados em demasia que
não a permitem estudar com os demais?
"Uma sociedade que não admite os desiguais, dá as costas à civilização"
(15 de julho/2006)
CooJornal no 485
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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