
22/07/2006
Ano 9 - Número 486
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
FilosofIa de boutique
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Vendi minha
casa de veraneio de porteira fechada. Tudo que lá estava, lá ficava. Meu
caseiro e meu cachorro, portanto, estavam incluídos. Ouvi de uma de minhas
irmãs:
- Desumana, fria, materialista! Que maldade vender um cão de dez anos!
Não argumentei mais do que já tinha feito anteriormente, que o cachorro
nos últimos dois anos havia sido visitado por nós, seus "donos"?! apenas
duas vezes, que o caseiro tinha virado seu tutor e que o dog
assumidamente adorou ser dele, reelegeu com prazer seu senhor, aquele que
lhe dava mais que comida e vacina. Catava seus carrapatos no banho,
passeava ao sol, protegia-o do barulho dos fogos, afagava seus pêlos, tudo
com muito carinho, coisa que nós havíamos substituído por um cartão de
crédito que pagava a ração, o veterinário, o empregado, a nossa culpa!? e
ainda nos sentíamos bacanas por tanto desprendimento ao animal. Eu sei que
ela sabia disso muitíssimo bem, não adiantaria eu repetir, pois ela só
ouve a si própria.
Minha irmã sempre se considerou a rainha das virtudes e é extremamente
obediente a toda e qualquer convenção, pois teima que ambas andam de mãos
dadas. Vender uma casa com um cachorro velho quebra qualquer regra que
classifica um indivíduo como bom, foge totalmente ao convencional para
qualquer pessoa, que dirá para ela, que até para sonhar estipulou normas.
Ainda me lembro de nós adolescentes papeando no imaginário. Ela jamais
sonhou em voz alta com o nosso professor de ginástica, peladão,
dando-lhe uns amassos ao som de um Pink Floyd. A boa norma
manda que meninas decentes se preservem até em devaneios. O máximo que se
permitiu foi imaginá-lo de terno dançando alguma música do Rei Roberto
Carlos.
São tantas emoções que ela não viveu!
Ouvi seu discurso formal perante a família, ela adora uma platéia, mostrar
que é bem sábia, uma Sócrates de saias, suspirando com o olhar distante à
espera de olhares aprovadores. Determinou que generosidade está estipulada
em algum código.
Será que é no da Vinci e eu nem percebi tamanha a confusão da história?
Ela tinha aproximadamente onze anos quando por toda força e lei quis um
daqueles "ratinhos brancos", um infeliz hamster. O bichinho foi
comprado junto com a gaiola especial que vem com aquela neurótica rodinha,
rações diversas, uma lista de procedimentos de como cuidar dele. Ganhou o
nome de Fernando em homenagem ao nosso tio. Preferi apelidá-lo de Nando,
um garoto bem gostosinho lá da rua, quase tão gostoso quanto o professor
de ginástica nu nos meus delírios anormais.
Na primeira semana, diariamente, foram servidas várias "refeições”, a água
trocada de hora em hora. A gaiola recebia forragem nova e Nandinho
era olhado com imenso carinho. Ninguém podia chegar perto para não
irritá-lo. Sempre achei que a neurótica rodinha já era mais que o
suficiente. Políticos deveriam ter rodinhas nos gabinetes. Quem sabe não é
essa a solução para o mensalão? Enquanto rodam não roubam. Organizações
Tabajaras baixou aqui.
Aos poucos o zelo foi sendo substituído pelo esquecimento. Passou o
momento de amar? A preocupação com o fofinho "lindo de morrer" ficou para
dias alternados. Não demorou nadinha e a responsabilidade do trato diário
do principezinho virou da mamãe. Um dia ele morreu de forma natural ou foi
suicídio para se livrar da neurótica rodinha?
Eu se fosse ele, juro que teria me matado!
Custou uma semana para que ela percebesse que o fofíssimo não estava mais
entre nós, provavelmente estava girando no espaço, condicionado à
neurótica circulante. Começou a chorar, fitando o vazio, com seu olhar
bondoso e seu jeans novo.
Entre soluços e respiração profunda (pensadores inalam muito ar) afirmou
melancólica:
- Vida injusta! Perdi meu amiguinho estupidamente.
Ouvi mamãe, ao longe, gritar:
- Você não perde aquilo que abandona, apenas pode ser que não ache mais.
Meu antigo cachorro? Vai indo maravilhosamente bem com seu verdadeiro
dono, aquele que não o ama por estar em voga.
(22 de julho/2006)
CooJornal no 486
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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