Mas não
chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.
(Quinto Motivo
da Rosa-Cecília Meireles)
Seu alguém escreveu no aberto para owner de um dos grupos
em que estou, solicitando sua exclusão definitiva da lista. Para fazer
esse pedido desnecessário, qualquer criança sabe excluir-se de um grupo,
utilizou-se de um e-mail que recebeu via lista, onde tinha um belíssimo
poema de amor. Escreveu em letras garrafais o motivo de sua saída.
Na íntegra seu e-mail:
“Os textos da vossa lista são frágeis, kitsch e
deprimentes...
Andar a falar assim do amor, em tempo de guerras e infortúnios é muito
triste”.
Provavelmente imaginou que ninguém saberia o que é kitsch ou
então quis dar uma de circunspeto. Por onde anda o pensamento do seu
alguém? A noção de Kitsch para o mercado pseudocultural é
enfiar “produtos” que induzam ao abandono da combatividade, à estagnação
política, à esclerose com o sistema do poder. O futebol e os grandes
concertos de rock são exemplos deste processo pseudocatártico, em
que a forjada cultura e arte se impõem como recreação e entretenimento.
Possuem facilidade de acesso e compreensão, efeitos rápidos e previsíveis,
impedindo a evolução cultural das pessoas. Resumindo, dentro da teoria pão
e circo, o circo.
”O bom menino não faz
xixi na cama”.
Saudades do Carequinha!
Será que o nosso poetar diário é isso tudo? Será que o melhor a fazer é
ficar só lendo as manchetes de jornais falando das sanguessugas que comem
nossas esperanças em qualquer lugar do planeta e depois constatar a volta
deles ao podium, apesar do nosso grito de nananinãoooooo nas urnas?
”O bom menino não faz malcriação”. Muitas saudades do Carequinha!
Será que Woodstock foi o desencadeador da guerra do Vietnã e não o
inverso?
Será que Carlos
Drummond teve responsabilidade nos escândalos da previdência, pois lua e
conhaque o emocionavam pra cacete? Enfim, será que as listas do Yahoo
vão servir de pretexto para a terceira guerra mundial?
”O bom menino vai
sempre à escola”. Caraca! Que saudade frenética do Carequinha.
Sei muitíssimo bem que temos que filtrar todo e qualquer veículo de
comunicação; sei também que a Internet tem servido para levar a falta de
consciência do mundo real, como se a vida se resumisse a uma tela. Haja
vista a quantidade de comunidades do Orkut totalmente alienadas,
haja vista pessoas que transferiram suas vidas para um micro, haja vista
donos de listas que sentem imperadores de reinados imaginários, haja vista
celebridades virtuais achando que o dono do açougue vai lhe render
homenagens, pois na net ele é considerado um escritor fodão.
Ele, seu alguém, deu uma boa levantada, mas não exatamente no âmago
da questão. Não são os poemas de amor os motivos. Os motivos? Estão nos
motivos que fizeram com que o mundo só ficasse bonito atrás do computador.
”E na escola
aprende sempre a lição”. Sempre adorei o Carequinha e nem sabia que
ele era Kitsch. Mas será que ele e eu somos pseudoculturais ou
anticulturais, procurando uma nova história por não nos acharmos na
antiga, por mais que a gente a persiga?
Quero bons motivos para caminhar nas ruas sorrindo, pois para poetar feliz
tenho quatro bons motivos. O quinto Cecília me deu.
Amo amar, isto por si
só já não valida a euforia do meu lirismo? Não consigo ver cura na
ostentação da dor, não sou estilista da palavra, estes estão nas
pranchetas da posse buscando modelos novos com a cor do sangue antigo.
Apenas costuro letras para tentar vestir o mundo velho com um carinho
Prêt-à-Porter, ainda que só por uma estação, enquanto algum Nostradamus da
rede Globo não avisa no Fantástico que o mundo acabou. Minha sabedoria
pode até ser de rua seu doutor, massificada na vontade de paz, não fiz
faculdade do terror que banaliza os sentimentos, a ponto de ser grosseira
com meus comuns, pois acordei com uma pontinha de dor de cabeça. Não quero
fazer pré-vestibular para maldade. Prefiro ser analfabeta em arrogância.
Ser ou não ser não é mais questão nem em poesia?
Ter ou não ter, essa é a dos “Shakespeares” civilizados
contemporâneos, guardiões da arte dos desencontros. Ainda vivo de forma
incivilizada na busca de encontros e ponto!
(29 de julho/2006)
CooJornal no 487