
05/08/2006
Ano 10 - Número 488
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Lovely Rita
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Após uma separação
exaustiva, muitas idas ao advogado, sorrisos falsos de "apenas bons
amigos", discussões calorosas de quem fica com o quê (“o dvd do Fred
Mecury fui eu que comprei, viu!!!!”), Rita enfrenta seu primeiro sábado
depois de vinte anos de casamento, literalmente sozinha. Os filhos foram
passar o fim de semana com o ex-marido, mas não ex-pai. Luiz foi um merdão
de parceiro, mas ela reconhece que sempre foi um paizão.
Pensa em ir a uma boate, mas desiste rapidamente, pois seus cabelos estão
uma titica... ou melhor, sua alma é que está.
Resolve que na segunda-feira irá ao cirurgião plástico, tentar ficar com
cara de clone. É, esticada que nem a Elza Soares, mas em versão branca,
que nem a Deborah Evelyn. Cara de Michael Jackson, Glória Menezes, cara de
clone... Sempre com aquele ar de espanto, lustrosa de tanto esticar.
Pronta para eternizar-se no museu de cera ainda em vida.
Vai pôr também silicone nos peitinhos caídos de tanto o Luizinho mamar. A
partir de segunda, todo mundo vai saber que ela é uma cinqüentona que fez
plástica, apesar de ela só ter quarenta e cinco!
Lembra-se também de comprar diversas calças com bolso faca. A mão vai
viver enfiada no bolso. Será que tem botox para mão? A mão não tem
dedo-duro, é o próprio dedo-duro. Entrega geral. Agora só vai pra night
quando estiver clonada e bem branca, só sairá com filtro solar fator 970.
Não pode ter manchas senis na pele.
Ficar em casa sozinha leva-a a conferir sentimentos em forma de cd. Rita
Lee, sua xará, com o bendito banho de espuma foi testemunha da tal
confusão de pernas dela com o Luiz.
— Merda, nunca mais vou ser feliz. Ou vou, depois da clonagem?
Enquanto não chega o dia, resolve comer muito. O regime começa na terça,
junto com a plástica. Desistiu de segunda. Segunda pára de fumar e olhe
lá.
Pipocas com muita manteiga, muito guaraná e sem ser diet. Depois um
sorvetão.
Coloca lança-perfume bem alto, para não ficar impune, e parte para o
microondas.
Faz um puta pote delas. Entupidas de sal, é tudo de bom! Por falar dele,
cadê ele? Esqueceu-se de comprar ou ele foi na partilha de bens? Porra!
Urubu cagou na sua cabeça. A vontade agora de comer a pipoca é maior do
que a de plastificar a cara. E por falar de cara, lembra-se do vizinho do
lado, o maior cara-de-pau do prédio. Antipático pra dedéu. Nem um bom-dia
dá!
Agora também dane-se. Está divorciada, é uma mulher emancipada, breve
siliconizada. Enfrenta todas.
Vai ao apartamento dele. Bate na porta, ele atende. Ela, com aquele
belíssimo pote e com cara de babaca, pede o sal.
Ele avisa que tem, mas fala entredentes, quase sussurrando, que tem a
crença de que sal não deve ser emprestado... Dá azar. Ela, sem graça, diz
que respeita a tal crença imbecil, agradece e dá meia-volta. Sempre soube
que ele era nojento, retardado.
De repente, porém, ouve aquele psiu!...
— Não posso emprestar o sal, mas não tenho crença alguma que impeça de
comermos as pipocas aqui, juntos...Topa?
Pipocas, com cheiro de coisa maluca!!!
A plástica foi feita no próprio sábado, sem anestesia.
Botox no ego! Silicone na alma!
Ficou bem lustrosa a auto-estima da Ritinha!
(05 de agosto/2006)
CooJornal no 488
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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