19/08/2006
Ano 10 - Número 490

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena


Endurecia sem ternura


 

 “O amor nascer e ser assassinado
Eu vi as bruxas pegando fogo pra pagarem seus pecados” ·
(Eu nasci há dez mil anos atrás-Raul Seixas)



Seu Raul foi morar em meu prédio há dez mil anos atrás e não tem nada da vida dele que eu não saiba de cor. Não sou de ficar prestando atenção na vida alheia, mas ele e a família quando se mudaram para o nosso pacato prédio causaram o efeito de uma tsunami no condomínio.

Moro numa rua calma e arborizada, prédio de nove andares que fica colado a um convento que ainda possui áreas verdes, preservadas inclusive pelo patrimônio histórico.
Apelidei o reduto de último paraíso carioca. Aqui não se ouve barulho de ônibus e ao se abrir a janela recebemos visitas de sagüis e passarinhos. Dois apartamentos por andar, pouquíssima conversa entre os moradores, isso até incomoda, pois existe uma impessoalidade imensa entre pessoas que habitam os mesmos metros quadrados. O semblante da maioria dos moradores é cara de quem peidou aqui, boca torta fechada; sorrir não dói, mas muitos ainda não acreditam nisso e preferem seus olhares fixos nos botões do elevador.
Tenho alguns vizinhos que já moram aqui há mais de vinte mil anos e eu não sei até hoje o nome, não por falta de tentativas minhas, mas percebo que sou olhada como invasora.
Seu Raul quando chegou virou exceção não exemplo. Ninguém com bom senso tem atualmente, não só pelas despesas, mas também pela situação do planeta, sete filhos. Ele teve! Essa foi a minha primeira descoberta, ao chamar qualquer um dos elevadores e vê-los empacados no terceiro andar. Liguei para portaria e avisei que todos os elevadores estavam com defeito. Fui avisada que a família nova, compostas de onze pessoas, usava os três elevadores e dois carros a cada saída. Pai, mãe, sete filhos, uma sogra e uma babá.

A minha segunda descoberta foi o som do berro e do tapa do Raul. O cara gritava muito com a família, socava as portas dos elevadores para apressar quem o estava usando, reclamava desde o porteiro até o sino do convento. Na seqüência de desvendar sem querer esse ser, assisti as aceleradas do carro dele na garagem, sua cara de bonzinho, mas num jeito bem mais autoritário que Fidel, as beliscadas humilhantes em público nos filhos, a eterna ironia com a esposa, o descarado deboche do sotaque da babá nordestina. Apelidei-o de Carandiru, superlotação e falta de respeito aos direitos humanos. Mandava (nas internas) seu Carandiru tomar na rima.
A esposa dele eu acabei conhecendo e convivendo um pouco no play. Minha filha era pequena e ela ainda tinha dois miudinhos, os demais já na escola. Quando a avistei com as crianças pela primeira vez, ela raspava uma maçã e eu apelidei-a imediatamente de Branca de Neve. Já tinha os sete anões e uma sogra de fisionomia carrancuda, que caiu como luva para ser a malvada madrasta. Branca, que se chama Tereza, era lívida como a neve, olheiras profundas de cansaço, um ar de impotência, um tremendo medo e total desespero de não dar conta de tudo até a chegada do Carandiru. Com o tempo ouvi muitos gritos domésticos e seu choro confuso:
-Por que não passou minha camisa listrada? Fez o quê o dia todo? Abaixa esse inferno de televisão! Que nota é essa? Seu imbecil! Cambada de inúteis e eu sustentando a boa vida.
Não conseguia entender porque Tereza, arquiteta formada, não mandava o Raul pra puta que pariu e ia à luta. Será que ele era muito bom de cama? Acho que o falo dele falava mais alto que a voz, só podia ser isso.
 

Fecha a cena.

Como em novelas reabro a cena vinte anos depois.

A fuga do Carandiru foi em massa. A malvada madrasta faleceu há seis anos atrás e Tereza sem vigias virou Terezinha, não a de Jesus. Foi a primeira a se mandar, juntou-se com um garçom de um buffet francês que conheceu nos setenta anos da sogra-madrasta e segundo falam, o falo dele falou mais alto que o do Fidel carioca. Liberté, Fraternité, Igualité!
Os anões com o tempo viraram gigantes, alguns casaram, outros foram morar com a vida, longe do presídio. Adeus à ditadura! Viva a anistia!

Ontem o Raulzão, Raulzito só o Seixas, foi resgatado em casa. Caiu sozinho no banheiro e ficou um dia inteiro tentando se locomover até o interfone para pedir ajuda ao porteiro. Há meses ninguém liga para ele, que dirá visitar! Gritou novamente no elevador quando a ambulância chegou, que de nada serviu ter tantos filhos.
- Corja de incompetentes e ingratos... (ainda pensa que grito espanta!).
Raul, que não era nem um pouco o Seixas, não viu, nem imaginou "o amor nascer e ser assassinado" na grossura, "as bruxas pegando fogo pra pagarem seus pecados" em vida.

Pena que ainda tenha tanta gente nesse mundo que no amor saiba de menos, né Raulzito?


 
(19 de agosto/2006)
CooJornal no 490


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net