
26/08/2006
Ano 10 - Número 491
ARQUIVO
ROSA PENA
|
|
Rosa Pena
Afatiada
|
 |
Foi como um
aniversário inesquecível. A mesa bem arrumada pela mamãe, os enfeites
escolhidos a dedo, Rapunzel com tranças de chocolate, o bolo um castelo
enfeitado, as bolas coloridas sopradas com vigor estacionadas no teto
espiando o alegre movimento, os presentes colocados amostra na cama.
Sentir que somos amados é tão bom, ainda que seja só numa festinha que
depois fica no registro do álbum da memória como uma das fotografias
preferidas.
Foi como na hora de soprar as velinhas, todos em volta sorridentes
cantando com fôlego parabéns. Isso nos faz sorrir e cantar mais alto para
nós mesmo e até engrossar o coro do é big big big, é hora hora
hora, Rá Tim bum! Todos gritam o nosso nome. Sonoro som. Depois vem o
direito de fazer um pedido secreto.
Foi como no momento de cortar o bolo e dar a primeira fatia, a mais
especial, aquela que será olhada por todos como o pedaço amoroso para
figura number one em nosso viver. Naquele ano foi sua, ainda que em
pensamento, para você ter idéia da sua importância em meu viver. Saboreei
intensamente o nosso pedaço.
O pedido foi ter você.
Eu não sabia ainda quantos aniversários viriam, quantos bolos a vida me
daria, os bigs que eu não diria, as horas que trariam as rugas que hoje me
batem com força na cara, o bum das rasteiras sem Tim, quantas camas vazias
de presentes eu teria. Não sei se o amei muito ou pouco! Isso não importa,
mas sim o prazer que você me transporta ao me lembrar que a primeira fatia
do bolo do meu aniversário mais bonito foi sua, acho que mais do que isso,
naquele ano eu fui inteiramente sua sem cobertura. Fui absurdamente sua
sim, assim como uma criança que dorme, completamente exposta, indefesa,
nua. Naquele ano aniversariei tantas vezes que gastei todo o meu estoque
de Happy Birthday.
Agora sem mãe, sem mesa posta, sem você, minhas pernas rumam para uma
churrascaria onde o gerente com um sorriso cheirando a picanha, oferece-me
de cortesia uma torta e me diz parabéns. Minha covardia agradece como o
momento convém, pensando nas novas teias que se formarão no telhado de
minha morada de recordações no novo ano que insiste em me reiniciar na
vida, mas desiste de me iniciar na arte de esquecer.
Imagino por momentos a última fatia de um bolo em algum lugar no espaço.
Se me fosse dada alguma escolha, queria que ela fosse novamente sua. O
pedido secreto o mesmo, que teima em me acompanhar nestes aniversários tão
iguais as tulipas de um bar. É small, small, small. É hora, é hora, é hora
de pintar os cabelos, Rapunzel está com as tranças glacê mármore. E eu
continuo sem saber se o amei muito ou pouco.
Mas que me importa isso agora?
(26 de agosto/2006)
CooJornal no 491
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
|
|