
09/09/2006
Ano 10 - Número 493
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Carta ao Rei RC
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Roberto Carlos
Gostaria de abrir meu coração para ti, sendo absolutamente sincera
contigo. Nunca fui tua fã incondicional, não fui a nenhum show teu, não
tenho vinil nem cd, até porque não havia te sentido como rei em meu
coração. Quando eu era mocinha, optei por bossa nova, MPB, rock, jazz. Tu
já eras sucesso com a Jovem Guarda, e eu achava as músicas desta galera,
por vezes, chatinhas, até mesmo bregas, indefinidas para mim. Não as
reconhecia como rock, nem como samba, nem como nada. Não dei a devida
atenção à tua poesia, nunca senti em tuas canções a tal “é uma brasa,
mora?” Quantos “nãos e nuncas” dizemos em confissões. “Sempre” também
usamos muito!
Sempre te amarei, nunca te esquecerei... Eta palavras danadas!
Realmente só fui descobrir os detalhes tão pequenos de nós dois depois dos
quarenta. Acho que antes eu corria demais para ficar adulta e atualmente
quero que o tempo pare ou regrida. De uns anos para cá, andei revendo meus
conceitos, minhas escolhas afetivas, até porque todo ser pensante pode
mudar de opinião, aliás, é bastante saudável, não achas? Acredito mesmo
que ando em crise de existência, triste por ter valorizado em demasia
coisas que de nada valiam e ter passado batida em coisas que teriam valido
uma vida, se vividas.
Mas faz parte do show, dentro e fora do palco, os tais enganos com poucos
ou muitos danos. Em alguns casos, gostaria muito de poder voltar no
calendário. Impossível se faz. Em relação a ti, no entanto, posso tentar
reverter. Confessar meus erros e tentar desabafar meu “eu” com teus
versos.
Há tempo, ainda, de renovar minha fé que anda bastante cansada? Estou tão
decepcionada com o verdadeiro sentido do amor. Quero muito ter amigos de
fé. Quero perceber que convivo com irmãos que me estendam a mão e sentir
que o mundo pode e deve ser camarada. Será que estou redondamente
enganada?
Necessito amar sempre de todas as formas e maneiras. Quero voltar a sentir
tesão pelo mundo. E te digo uma definição que ouvi de uma mulher: “Amor é
feito de admiração e tesão.”
Desejo voltar a sentir admiração por meu amado e espero que ele volte a
sentir por mim. Assim manteremos acesa a chama da verdade de quem ama.
Quando falo de amado, estou falando de amor em geral. Sejam amores amigos,
novos ou antigos. Até dos amores loucos, não definidos ou assumidos. Será
que estes sentimentos amorosos estão ultrapassados?
Acho que fiquei antiga, gasta, como o meu velho tênis e a minha calça
desbotada, mas, no entanto, persisto no sonho de encontrar um amante à sua
moda, que nunca cairá em desuso, do tipo que ainda manda flores e trata a
amada como eterna namorada. Onde acho? Enfim, quero a cada amanhecer ver o
nascer do sol, pedir um lindo café da manhã para dois, mesmo que seja
light, como os tempos modernos impõem; quero ter a certeza de que nada
mais será em vão, que meu sorriso ou o meu pranto, apesar de contidos e
elegantes, já que atualmente extravasar é “mico”, serão sempre frutos das
emoções que eu vivi, enquanto estive por aqui.
É pedir muito na aurora da vida? Talvez sim. Mas sou poeta e a cabeça do
poeta é repleta de sonhos e ilusões, sabes bem disso.
Se tiveres algumas dicas de como se consegue não perder as ilusões,
coloque no próximo cd, pois este estará entre meus preferidos.
Despeço-me de ti colocando a coroa em tua cabeça, coisa que já deveria ter
feito antes.
Percebes que te curti a vida toda e não vi? Quantas vezes será que isto
fiz?
Um beijo de sua fã,
Rosa Pena
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livro PreTextos/2004
(09 de setembro/2006)
CooJornal no 493
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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